Vista aerea de União das freguesias de Mangualde, Mesquitela e Cunha Alta
DGT - Direcao-Geral do Territorio · CC BY 4.0
Viseu · RELAXAMENTO

Pedra, granito e memória na Beira Alta de Mangualde

União de freguesias entre o Dão e a Serra da Estrela, onde o tempo corre devagar a 610 metros

9858 hab.
610.1 m alt.

O que ver e fazer em União das freguesias de Mangualde, Mesquitela e Cunha Alta

Património classificado

  • IIPCapela do Rebelo
  • IIPCasa da Mesquitela
  • IIPCasa de Almeidinha
  • IIPCasa de Almeidinha, com azulejos do século XVIII e os jardins anexos
  • IIPIgreja da Misericórdia de Mangualde

E mais 4 monumentos

Produtos com Denominação de Origem

Festas e romarias em Mangualde

Agosto
Festa da Senhora da Assunção Segundo fim de semana de agosto festa religiosa
Romaria de Nossa Senhora do Castelo 15 de agosto romaria
Setembro
Feira de São Mateus 15 de setembro a 15 de outubro feira
ARTIGO

Artigo completo sobre Pedra, granito e memória na Beira Alta de Mangualde

União de freguesias entre o Dão e a Serra da Estrela, onde o tempo corre devagar a 610 metros

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O sino da Igreja Matriz de Mangualde bate uma vez, e o eco percorre a rua Direita até se perder algures entre os telhados de telha velha. São dez da manhã de um sábado e o Mercado Municipal já fervilha — vozes que regateiam nas bancas da peixeiraira Celeste, o embate seco de caixotes de madeira sobre a bancada, o cheiro denso do queijo Amanteigado da Quinta da Lagoa que se mistura com o de coentros frescos da horta do Seixo. Dona Alda parte um Queijo Serra da Estrela DOP ao meio e a pasta amarelada escorre, lenta, sobre o papel pardo. Não há pressa. Nunca há pressa.

Estamos a 610 metros de altitude, num planalto da Beira Alta onde o granito aflora por entre a terra castanha e os carvalhais estendem sombras longas sobre os caminhos. A União das freguesias de Mangualde, Mesquitela e Cunha Alta — nascida em 2013 da fusão administrativa que juntou 3.893 eleitores de Mangualde, 1.125 de Mesquitela e 487 de Cunha Alta — ocupa 46,25 km² entre o Rio Dão e as primeiras ondulações que anunciam a Serra da Estrela. Aqui vivem 9.858 pessoas, e 2.547 já passaram os 65 anos, o que se sente na cadência com que as coisas acontecem: devagar, com método, sem alarido.

O castelo que já não está e a memória que ficou

Mangualde aparece em foral de 1258, outorgado por D. Afonso III, e o seu nome — derivado, dizem os etimologistas, do latim manicula, pequena mão — pode ter a ver com a forma do terreno ou com o marco de granito que ainda hoje marca a antiga fronteira com o concelho de Penalva do Castelo. Durante a Reconquista cristã, o castelo erguido no alto do monte (coordenadas 40°36'15"N 7°45'42"W) serviu de posto de vigília e defesa. Hoje restam troços de muralha com 1,20 metros de espessura e a cisterna que abastecia a guarnição, pedras sobrepostas cobertas de líquenes e musgo húmido, mas o lugar conserva a amplitude da vista: ao fim da tarde, quando o sol desce sobre o vale, a luz rasante tinge de âmbar as paredes da Capela de Nossa Senhora do Castelo, construída em 1641 sobre o antigo castelo, e os pinhais ao longe escurecem em silhueta recortada.

A Igreja Matriz, no centro da vila, sobrepõe camadas de tempo — o portal manuelino do início do século XVI convive com o retábulo barroco de 1724 encomendado ao mestre José de Almeida, e a pedra lavrada guarda o frio mesmo nos dias de calor. Em Mesquitela, cujo nome deriva do árabe "Mashquita" (pequena mesquita), indício de ocupação muçulmana entre 714 e 1055, a igreja é de traça rural simples, paredes caiadas e um adro onde o silêncio se adensa ao meio-dia. Pontes de pedra atravessam ribeiros estreitos: a Ponte de Cunha Alta, com os seus três arcos ogivais gastos pela água e pelo vento, é uma dessas estruturas que parecem ter crescido do próprio leito do ribeiro de Cunha Alta. Sete destes monumentos estão classificados como Imóvel de Interesse Público — testemunhos de uma região que construiu em granito e rezou em capelas de São Sebastião, espalhadas entre campos e lameiros.

Onde o rebanho ainda sobe à serra

Cunha Alta guarda uma prática que quase desapareceu do país: a transumância. Em maio, pastores como o António Cerqueira ainda deslocam 450 ovelhas para os pastos altos da serra, num percurso de 35 quilómetros cadenciado pelo tilintar dos chocalhos de latão e pelo ladrar dos cães Serra da Estrela. É desta relação com o gado que nasce o Borrego Serra da Estrela DOP, servido assado com batata miúda ou em ensopados que aquecem as noites frias de Janeiro. E é da mesma tradição que vem o Requeijão Serra da Estrela DOP, fresco, granuloso, com aquele travo suave de soro quente que as mulheres do lugar chamam "doçura do leite".

A matança do porco, em Cunha Alta, continua a ser ritual colectivo — vizinhos que se juntam na segunda quinzena de Janeiro para preparar chouriças, fumá-las sobre lenha de carvalho durante três dias, encher a despensa para os messes mais duros. A chanfana, cabrito cozinhado lentamente em vinho branco do Dão dentro de caçoila de barro durante quatro horas, é outro pilar desta mesa. Acompanha-se com arroz de carqueja, que traz à boca um amargo vegetal e terroso, ou com sopa de nabos da horta, espessa, reconfortante. Os vinhos da região do Dão — tintos encorpados, de tanino firme — chegam à mesa em jarros de barro ou garrafas sem rótulo vindas da Quinta dos Carvalhais, onde a vinha cresce entre muros de pedra solta a 500 metros de altitude.

O ribeiro que ensina a parar

O Ribeiro de Mesquitela desce entre fragas de xisto e vegetação cerrada até formar poças naturais onde a água corre transparente sobre seixos de quartzo. Os trilhos pedestres que o acompanham, marcados pela Associação de Municípios da Região de Viseu com placas de madeira, são sombreados por carvalhais centenários e ladeados por matagais de esteva — no início de Junho, a esteva liberta aquela resina pegajosa e aromática que adere aos dedos e perfuma o ar quente. Águias-de-cauda-curta traçam círculos largos sobre o vale, e nos matos mais densos é possível cruzar-se com o rasto de javalis que descem à noite para as vinhas.

O Monte de Nossa Senhora do Castelo funciona como miradouro natural sobre Mangualde e os campos em redor. De bicicleta, a rota de cicloturismo "Trilhos do Dão" liga as três localidades — Mangualde, Mesquitela, Cunha Alta — por 23 quilómetros de estradas secundárias onde o trânsito é quase inexistente e o único obstáculo é, por vezes, o rebanho de 80 cabras da família Gomes que atravessa sem pressa às nove da manhã. As festas pontuam o calendário: a romaria de São Sebastião, em Mesquitela, a 20 de Janeiro, com bênção de animais e feira de produtos da terra; a festa de Nossa Senhora do Castelo, na primeira semana de Agosto, com procissão, missa campal e arraial nocturno onde a música de concertina de Horácio se mistura com o cheiro a farturas.

Pão de ló e pó de estrada

Na pastelaria Moderna de Mangualde, o pão de ló ainda sai húmido do forno às quartas e sábados, tremendo ligeiramente quando o pousam sobre o prato. Os pastéis de feijão, com a sua crosta fina e quebradiça, acompanham o café da tarde servido em chávenas de porcelana Bordallo Pinheiro. Nas quintas que produzem Queijo Serra da Estrela DOP, como a Quinta da Bica, a coalhada é apertada à mão com pano de linho, e o cheiro a leite gordo e cardo impregna as salas de cura com uma doçura animal que não se esquece.

Há nove alojamentos dispersos pela freguesia — moradias, quartos, estabelecimentos de hospedagem sem grande aparato — o suficiente para quem quer ficar dois ou três dias e deixar que o ritmo do lugar se imponha. Não é um destino que se consuma depressa. É um sítio para percorrer a pé, para sentar no muro de granito aquecido pelo sol da tarde junto à antiga estação da Beira Alta, para ouvir o caudal fino do ribeiro e perceber que o som da água sobre a pedra é, afinal, a única coisa que precisávamos de ouvir.

A última imagem que fica é esta: o fumo branco da chaminé da casa do Sr. Jaime em Cunha Alta, ao anoitecer, com o cheiro a lenha de carvalho e a chouriça no fumeiro a descer pelo vale — e, ao longe, o contorno escuro da serra a fechar o horizonte como uma mão enorme, aberta, que protege tudo isto sem pedir nada em troca.

Dados de interesse

Distrito
Viseu
Concelho
Mangualde
DICOFRE
180619
Arquetipo
RELAXAMENTO
Tier
vip

Habitabilidade e Serviços

Dados-chave para viver ou teletrabalhar

2023
ConectividadeFibra + 5G
TransporteEstação de comboio
SaúdeCentro de saúde
EducaçãoEscola secundária e básica
Habitação~546 €/m² compra · 3.72 €/m² rendaAcessível
Clima14.8°C média anual · 1107 mm/ano

Fontes: INE, ANACOM, SNS, DGEEC, IPMA

ADN da Aldeia

70
Romance
50
Familia
50
Fotogenia
60
Gastronomia
30
Natureza
35
Historia

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Perguntas frequentes sobre União das freguesias de Mangualde, Mesquitela e Cunha Alta

Onde fica União das freguesias de Mangualde, Mesquitela e Cunha Alta?

União das freguesias de Mangualde, Mesquitela e Cunha Alta é uma freguesia do concelho de Mangualde, distrito de Viseu, Portugal. Coordenadas: 40.6125°N, -7.7445°W.

Quantos habitantes tem União das freguesias de Mangualde, Mesquitela e Cunha Alta?

União das freguesias de Mangualde, Mesquitela e Cunha Alta tem 9858 habitantes, segundo os dados dos Censos.

O que ver em União das freguesias de Mangualde, Mesquitela e Cunha Alta?

Em União das freguesias de Mangualde, Mesquitela e Cunha Alta pode visitar Capela do Rebelo, Casa da Mesquitela, Casa de Almeidinha e mais 6 monumentos classificados. A região também é conhecida pelos seus produtos com denominação de origem.

Qual é a altitude de União das freguesias de Mangualde, Mesquitela e Cunha Alta?

União das freguesias de Mangualde, Mesquitela e Cunha Alta situa-se a uma altitude média de 610.1 metros acima do nível do mar, no distrito de Viseu.

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