Artigo completo sobre Pedra, granito e memória na Beira Alta de Mangualde
União de freguesias entre o Dão e a Serra da Estrela, onde o tempo corre devagar a 610 metros
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O sino da Igreja Matriz de Mangualde bate uma vez, e o eco percorre a rua Direita até se perder algures entre os telhados de telha velha. São dez da manhã de um sábado e o Mercado Municipal já fervilha — vozes que regateiam nas bancas da peixeiraira Celeste, o embate seco de caixotes de madeira sobre a bancada, o cheiro denso do queijo Amanteigado da Quinta da Lagoa que se mistura com o de coentros frescos da horta do Seixo. Dona Alda parte um Queijo Serra da Estrela DOP ao meio e a pasta amarelada escorre, lenta, sobre o papel pardo. Não há pressa. Nunca há pressa.
Estamos a 610 metros de altitude, num planalto da Beira Alta onde o granito aflora por entre a terra castanha e os carvalhais estendem sombras longas sobre os caminhos. A União das freguesias de Mangualde, Mesquitela e Cunha Alta — nascida em 2013 da fusão administrativa que juntou 3.893 eleitores de Mangualde, 1.125 de Mesquitela e 487 de Cunha Alta — ocupa 46,25 km² entre o Rio Dão e as primeiras ondulações que anunciam a Serra da Estrela. Aqui vivem 9.858 pessoas, e 2.547 já passaram os 65 anos, o que se sente na cadência com que as coisas acontecem: devagar, com método, sem alarido.
O castelo que já não está e a memória que ficou
Mangualde aparece em foral de 1258, outorgado por D. Afonso III, e o seu nome — derivado, dizem os etimologistas, do latim manicula, pequena mão — pode ter a ver com a forma do terreno ou com o marco de granito que ainda hoje marca a antiga fronteira com o concelho de Penalva do Castelo. Durante a Reconquista cristã, o castelo erguido no alto do monte (coordenadas 40°36'15"N 7°45'42"W) serviu de posto de vigília e defesa. Hoje restam troços de muralha com 1,20 metros de espessura e a cisterna que abastecia a guarnição, pedras sobrepostas cobertas de líquenes e musgo húmido, mas o lugar conserva a amplitude da vista: ao fim da tarde, quando o sol desce sobre o vale, a luz rasante tinge de âmbar as paredes da Capela de Nossa Senhora do Castelo, construída em 1641 sobre o antigo castelo, e os pinhais ao longe escurecem em silhueta recortada.
A Igreja Matriz, no centro da vila, sobrepõe camadas de tempo — o portal manuelino do início do século XVI convive com o retábulo barroco de 1724 encomendado ao mestre José de Almeida, e a pedra lavrada guarda o frio mesmo nos dias de calor. Em Mesquitela, cujo nome deriva do árabe "Mashquita" (pequena mesquita), indício de ocupação muçulmana entre 714 e 1055, a igreja é de traça rural simples, paredes caiadas e um adro onde o silêncio se adensa ao meio-dia. Pontes de pedra atravessam ribeiros estreitos: a Ponte de Cunha Alta, com os seus três arcos ogivais gastos pela água e pelo vento, é uma dessas estruturas que parecem ter crescido do próprio leito do ribeiro de Cunha Alta. Sete destes monumentos estão classificados como Imóvel de Interesse Público — testemunhos de uma região que construiu em granito e rezou em capelas de São Sebastião, espalhadas entre campos e lameiros.
Onde o rebanho ainda sobe à serra
Cunha Alta guarda uma prática que quase desapareceu do país: a transumância. Em maio, pastores como o António Cerqueira ainda deslocam 450 ovelhas para os pastos altos da serra, num percurso de 35 quilómetros cadenciado pelo tilintar dos chocalhos de latão e pelo ladrar dos cães Serra da Estrela. É desta relação com o gado que nasce o Borrego Serra da Estrela DOP, servido assado com batata miúda ou em ensopados que aquecem as noites frias de Janeiro. E é da mesma tradição que vem o Requeijão Serra da Estrela DOP, fresco, granuloso, com aquele travo suave de soro quente que as mulheres do lugar chamam "doçura do leite".
A matança do porco, em Cunha Alta, continua a ser ritual colectivo — vizinhos que se juntam na segunda quinzena de Janeiro para preparar chouriças, fumá-las sobre lenha de carvalho durante três dias, encher a despensa para os messes mais duros. A chanfana, cabrito cozinhado lentamente em vinho branco do Dão dentro de caçoila de barro durante quatro horas, é outro pilar desta mesa. Acompanha-se com arroz de carqueja, que traz à boca um amargo vegetal e terroso, ou com sopa de nabos da horta, espessa, reconfortante. Os vinhos da região do Dão — tintos encorpados, de tanino firme — chegam à mesa em jarros de barro ou garrafas sem rótulo vindas da Quinta dos Carvalhais, onde a vinha cresce entre muros de pedra solta a 500 metros de altitude.
O ribeiro que ensina a parar
O Ribeiro de Mesquitela desce entre fragas de xisto e vegetação cerrada até formar poças naturais onde a água corre transparente sobre seixos de quartzo. Os trilhos pedestres que o acompanham, marcados pela Associação de Municípios da Região de Viseu com placas de madeira, são sombreados por carvalhais centenários e ladeados por matagais de esteva — no início de Junho, a esteva liberta aquela resina pegajosa e aromática que adere aos dedos e perfuma o ar quente. Águias-de-cauda-curta traçam círculos largos sobre o vale, e nos matos mais densos é possível cruzar-se com o rasto de javalis que descem à noite para as vinhas.
O Monte de Nossa Senhora do Castelo funciona como miradouro natural sobre Mangualde e os campos em redor. De bicicleta, a rota de cicloturismo "Trilhos do Dão" liga as três localidades — Mangualde, Mesquitela, Cunha Alta — por 23 quilómetros de estradas secundárias onde o trânsito é quase inexistente e o único obstáculo é, por vezes, o rebanho de 80 cabras da família Gomes que atravessa sem pressa às nove da manhã. As festas pontuam o calendário: a romaria de São Sebastião, em Mesquitela, a 20 de Janeiro, com bênção de animais e feira de produtos da terra; a festa de Nossa Senhora do Castelo, na primeira semana de Agosto, com procissão, missa campal e arraial nocturno onde a música de concertina de Horácio se mistura com o cheiro a farturas.
Pão de ló e pó de estrada
Na pastelaria Moderna de Mangualde, o pão de ló ainda sai húmido do forno às quartas e sábados, tremendo ligeiramente quando o pousam sobre o prato. Os pastéis de feijão, com a sua crosta fina e quebradiça, acompanham o café da tarde servido em chávenas de porcelana Bordallo Pinheiro. Nas quintas que produzem Queijo Serra da Estrela DOP, como a Quinta da Bica, a coalhada é apertada à mão com pano de linho, e o cheiro a leite gordo e cardo impregna as salas de cura com uma doçura animal que não se esquece.
Há nove alojamentos dispersos pela freguesia — moradias, quartos, estabelecimentos de hospedagem sem grande aparato — o suficiente para quem quer ficar dois ou três dias e deixar que o ritmo do lugar se imponha. Não é um destino que se consuma depressa. É um sítio para percorrer a pé, para sentar no muro de granito aquecido pelo sol da tarde junto à antiga estação da Beira Alta, para ouvir o caudal fino do ribeiro e perceber que o som da água sobre a pedra é, afinal, a única coisa que precisávamos de ouvir.
A última imagem que fica é esta: o fumo branco da chaminé da casa do Sr. Jaime em Cunha Alta, ao anoitecer, com o cheiro a lenha de carvalho e a chouriça no fumeiro a descer pelo vale — e, ao longe, o contorno escuro da serra a fechar o horizonte como uma mão enorme, aberta, que protege tudo isto sem pedir nada em troca.