Artigo completo sobre Vinhas de Xisto Entre Vales e Serras de Mangualde
Moimenta de Maceira Dão e Lobelhe do Mato preservam tradições vitivinícolas no coração do Dão
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O nevoeiro da manhã dissolve-se lentamente sobre os vales, revelando um mosaico de vinhas dispostas em socalcos que sobem encostas de xisto. A cerca de 440 metros de altitude, o ar transporta um frescor húmido que se mistura com o aroma terroso das vinhas em repouso. Ao fundo, o perfil ondulado da serra desenha-se contra o céu, enquanto o silêncio só é interrompido pelo ladrar distante de um cão e pelo ranger de um portão de madeira.
A União das freguesias de Moimenta de Maceira Dão e Lobelhe do Mato nasceu em 2013, costurando dois territórios que, embora vizinhos, guardam identidades distintas. Moimenta — cujo nome remete para um local de monte ou elevação — cresceu ligada às vinhas que descem até ao vale do Dão. Maceira, por sua vez, evoca a memória de pomares de macieiras que terão pontuado estas encostas. Já Lobelhe do Mato carrega na própria designação a memória de um território mais agreste, onde o lobo e o mato dominavam a paisagem antes de esta ser domesticada pelo arado e pela cepa.
Entre a vinha e a montanha
Com apenas 727 habitantes distribuídos por pouco mais de sete quilómetros quadrados, este é um território que respira ao ritmo das estações agrícolas. A densidade populacional — cerca de cem pessoas por quilómetro quadrado — esconde uma realidade de casario disperso, onde as habitações se aninham entre parcelas de vinha, bosques de carvalhos e pequenas hortas muradas em pedra. A diferença entre Moimenta e Lobelhe revela-se na textura da paisagem: enquanto a primeira se entrega à geometria ordenada das vinhas do Dão, a segunda mantém um carácter mais montanhoso e florestal, onde a agricultura se faz em clareiras arrancadas ao mato.
O envelhecimento demográfico marca presença nos números — 210 idosos para apenas 65 jovens — mas também na cadência quotidiana. As ruas conhecem o passo lento de quem já não tem pressa, o banco de pedra à porta onde se descasca a conversa ao fim da tarde, o fumeiro onde pendem chouriças e presuntos curados pelo fumo de lenha de carvalho.
Sabores que se fazem aqui
Na mercearia da Dona Alda, o queijo da Serra cheira à terra molhada e ao fumo da lareira. Não é "produto gourmet" — é o queijo que o Zé Manel traz de bike de Pega, ainda morno, embrulhado em pano de algodão. O requeijão come-se com colher de pau, escorrido em cima do fogão a lenha. O borrego não vem de pastagens de montanha abstractas: vem do curral do Sequeira, que todos os anos repete o mesmo ritual — cria, mata, assa. No forno de lenha, com alho do quintal e sal que a vizinha trouxe do Fundão.
O vinho faz-se nas garagens e nas caves. A Adega da Vila tem portas de ferro que rangem e um cheiro a uva pisada que se agarra à roupa. Ainda há quem pise a pé, ao som de um acordeão, mas a maioria usa lagares modernos que não fazem barulho. O vinho dorme em pipas de carvalho português, mas também em barricas de aço que não deixam passar o tempo. Quem sabe, pergunta pelo tinto do Zé Sapateiro — não tem rótulo, mas tem gosto a xisto e a figueira.
O quotidiano como paisagem
Não há monumentos classificados nem roteiros turísticos sinalizados. A experiência deste território faz-se na observação do quotidiano: o fumo que sobe das chaminés ao anoitecer, o cheiro a terra revirada no Outono, o murmúrio da áscua que corre na levada junto à estrada de terra batida. A caminhada entre Moimenta e Lobelhe revela a transição gradual entre a vinha domesticada e o mato que resiste nas cumeadas, onde ainda crescem giestas bravas e urzes.
Ao entardecer, quando a luz rasante doura as folhas das videiras e as sombras se alongam pelos vales, o silêncio adensa-se. O sino da igreja de Moimenta toca às sete, mas nem sempre. Às vezes é o cão do Adério que ladrá aos postes, outras é o trator do Zé Carlos que desce a estrada em segunda. O tempo não se mede em minutos — mede-se em dias de sol na eira, em nuvens que trazem chuva para a vindima, em lenha que seca ao lado da casa para o Inverno que ainda não chegou.