Artigo completo sobre Paradinha e Nagosa: estrada fidalga e termas antigas
União de freguesias no planalto de Moimenta da Beira, entre casas brasonadas e nogueiras centenárias
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A estrada que sobe desde o vale do Távora fica mais estreita quando passa pela curva do Carrascal. Aí, o xisto escuro dos muros começa a cheirar a terra molhada, mesmo em Agosto. Sobem-se duas ou três lombas e eis que se avista: primeiro a torre da igreja de Paradinha, depois o tellhado de telha mourisca de Nagosa, coladas uma à outra como se a administração as tivesse costurado com linha branca no mapa.
A estrada da fidalga e o vale das nogueiras
A "Estrada da Fidalga" começa mesmo no cruzamento onde o José do Café guarda as suas galinhas dentro de um velho seat 600 descapotável. Antes de 1892, quem vinha de Moimenta subia a pé pela canada dos mouros; hoje ainda se ouvem os sapatos de sola de cortiça no mesmo calçamento, mas são os domingos de missa. A Casa dos Morais Sarmento tem a porta principal pintada de azul-elétrico desde que a D. Amélia resolveu "modernizar". O brasão continua lá, com a águia meio descascada, mas agora tem um gato tigrado a dormir em cima.
Em Nagosa, a fonte das águas sulfurosas deita um cheiro a ovo podido que se sente logo na curva da escola. O edifício das termas, com o reboco a cair às lascas, ainda tem o letreiro "Estabelecimento de Curas" pintado à mão. Dizem que o dr. Sousa, de Viseu, mandava vir aqui pacientes para tratar a "psoriase dos pobres". Hoje só vai lá o Zé Mergulhão regar o nespereiro que plantou dentro das casas de banho abandonadas.
Fogueira de São João e chanfana ao lume
No dia 23, à noite, começa o cheiro a alecrim queimado. É o António da padaria a limpar o forno onde no dia seguinte vai entrar a chanfana: cabra de três anos, marinada desde terça-feira no vinho da cave do Sr. Ramalho. Às nove da manhã de São João, o fumo já se vê de Vilar. As mulheres trazem os ramos de giesta em cima do carro do lixo, porque o autocarro escolar é o único que faz a ligação entre as duas aldeias desde que o Zé do Pipo partiu a perna no pinhal.
À noite, quando a fogueira baixa e os paus começam a crepitar em brasa, tira-se a panela de ferro preto. A carne já se desfaz só de olhar para ela. Serve-se em tigela de barro, com pão de milho que ainda estala quando partes, e rega-se com o molho mais escuro que o vinho tinto de mesa. Quem não gosta de cabra come sopa de nabos com o toucinho que se fumava na lareira da Avó Rosa — aquele que cheirava a resina de pinho durante todo o Inverno.
Entre socalcos e rapinas
O caminho que liga as duas aldeias começa mesmo ao lado do moinho do Pintor, onde ainda se vê o eixo de carvalho partido no meio. São 4,8 km de terra batida — contados pelo GPS do neto do Sr. Administrador — que cheiram a esteva quando o sol aquece. Na cota 620, onde o trilho se afunda entre dois muros de xisto, há um olival abandonado que é território da raposa. Às seis da tarde, quando o sol se põe atrás do Marco de Nagosa, os milhafres sobem ao mesmo tempo que as primeiras luzes das cozinhas se acendem.
Cá em baixo, no lugar de Baldios, a D. Odete ainda põe o bacelo nos eucaliptos para secar a borra de azeite. Diz que é o único sítio onde o vento do Távora não leva o cheiro azeitado para os casebres vizinhos. E tem razão: quando se fecha a porta do celeiro, ainda se sente o aroma do outono passado, misturado com o fedor das nogueiras podres que ninguém apanhou.
229 pessoas, 94 com mais de 65 anos. Mas na noite em que o coro das janeiras se junta ao som da concertina do Zé da Horta, parece que são mais. As vozes sobem pela canada abaixo, misturam-se com o latido do cão do Sr. Guarda, e quando a lua está cheia até parece que o vale inteiro canta.