Artigo completo sobre Vilar: vinhas em socalco no coração do Douro
Freguesia medieval de Moimenta da Beira onde os terraços agrícolas moldam a paisagem desde o século
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O sol da manhã demora a chegar aos socalcos — anda atrasado como o Sr. Arnaldo que abre a pastelaria em Moimenta às sete e meia, se tiver sorte. Aqui, a 619 metros de altitude, o ar corta a cara mesmo em Junho, trazendo aquele cheiro a terra molhada que faz lembrar a roupa esquecida na máquina. Entre as vinhas, o silêncio não é silêncio nenhum: é o murmúrio da ribeira que os velhos ainda chamam de "regato", como se lhe mudar o nome fosse suficiente para ela deixar de molhar os pés a quem se esquece das galochas.
Vilar não grita — nem sequer fala de voz levantada. Com 316 habitantes, esta freguesia da Moimenta da Beira aprendeu a existir no ritmo das colinas do Douro como quem aprende a andar de bicicleta: caiu tantas vezes que agora já nem se lembra de como era não saber. Dizem que o nome vem do latim villa, mas por cá ninguém liga a isso. Para nós, Vilar é apenas isto: o sítio onde a minha avó nasceu, onde o meu pai plantou a primeira videira, e onde ainda hoje o café do Lopes serve um bica que vale mais do que muitos vinhos de garrafa.
A vinha que não é paisagem postiça
Pertencer à Região Demarcada do Douro não é aqui título para pôr no postal. É trabalho de todos os dias, como ir ao pão. Os socalcos não são decoração — são o resultado de pais e avós que perceberam que, se não escavassem a encosta, a encosta os escavava a eles. Caminhar por estas vinhas é pisar granito que escorrega, ouvir as vinhas ranger como soalhos antigos, e ver a luz mudar de tonalidade como o Semedo muda de camisola: dourada ao meio-dia, cor de tijolo ao fim da tarde.
O microclima? É aquele que faz os médios de Lisboa parecerem previsões do tempo de um qualquer canal: os ribeiros que descem da serra mantêm as u frescas, e no Verão o sol queima o suficiente para as uvas adoçarem sem perderem a acidez — como a minha tia Albertina: doce, mas com dentes.
São João sem bandeira na janela
A Festa de São João é o que é: não há autocarros de turistas, nem lojas de souvenir. Há é procissão, sardinhas na brasa e o Zé Manel a tocar acordeão até as teclas se cansarem. As vozes sobem em cânticos que ninguém ensinou — aprendeu-se assim, de boca para orelha, como se aprende a fazer a broa. Por umas horas, a freguesia inteira respira ao mesmo tempo, e até o padre deixa de contar os crentes na missa do domingo seguinte.
Vilar tem 105 pessoas com mais de 65 anos e só 31 crianças. São números que fazem mossa, é verdade. Mas olhe: as casas de granito continuam aí, com os telhados aguentados por tábuas que já viram nevar mais vezes do que eu tenho idade. Os campos são lavrados, as vinhas não foram abandonadas, e no café ainda se discute se o Benfica esteve pior no ano passado ou há dois. É uma teimosia tranqüila, como a do meu pai que insiste em guardar sementes de tomate num frasco de café, jurando que são melhores que as compradas.
Ao cair da tarde, quando as sombras se alongam e o ar fica tão denso que quase se agarra, Vilar não se mostra — deixa-se sentir. É aquela hora em que o último pássaro se cala, a luz tira a mão do ombro das encostas, e percebe-se que este sítio não precisa de ser grande. Basta ser isto: um sítio onde ainda se pode ouvir o próprio pensamento, sem que ele se perca no trânsito.