Artigo completo sobre Trezói: onde o sino ecoa entre granito e vinhas do Dão
Freguesia de Mortágua preserva arquitectura tradicional e paisagem vinícola a 266 metros de altitude
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O sino da igreja marca as horas num eco que atravessa o vale sem pressa. Em Trezói, o som propaga-se por entre as casas de granito e xisto, alcança os lameiros inclinados onde ainda pastam algumas vacas, perde-se depois na cumeada arborizada que delimita a freguesia a norte. Aqui, a 266 metros de altitude, o ar carrega o cheiro a terra húmida e a fumo de lenha — mesmo em pleno dia, alguém mantém o lume aceso.
Trezói pertence ao concelho de Mortágua, no distrito de Viseu, e estende-se por 1750 hectares de relevo ondulado onde se alternam pequenos bosques, campos cultivados e manchas de mato. A densidade populacional é baixa — pouco menos de vinte habitantes por quilómetro quadrado — e os números dos Censos de 2021 contam uma história que se repete por toda a Beira: 343 residentes, dos quais apenas 24 têm menos de quinze anos e 159 ultrapassaram os sessenta e cinco. Nas ruas estreitas, o silêncio interrompe-se sobretudo ao final da tarde, quando os reformados se juntam à porta do café para comentar o dia.
Vinha, Pedra e Memória
A freguesia insere-se na região vinícola do Dão, e embora a viticultura não domine a paisagem como noutras zonas, as vinhas marcam presença nos terrenos mais expostos ao sol. As castas tradicionais da região — Touriga Nacional, Alfrocheiro, Encruzado — encontram aqui solos graníticos que conferem aos vinhos uma estrutura mineral característica. Não há grandes adegas abertas ao público, mas quem se aventura pelos caminhos de terra encontra portas entreabertas onde o cheiro a mosta ainda paira no ar, e onde um agricultor de mãos calejadas mostra orgulhoso as pipas de carvalho herdadas do pai.
O casario concentra-se em núcleos pequenos, onde o granito cinza das ombreiras e das soleiras contrasta com a cal branca das fachadas. Nas traseiras das casas, os quintais guardam hortas cuidadas, pereiras velhas que ainda dão fruto doce, um galinheiro de madeira escurecida pela chuva. A arquitectura é funcional, sem excessos decorativos, mas há uma coerência estética que nasce da repetição dos mesmos materiais, das mesmas proporções — como se as casas tivessem crescido da própria montanha.
Caminhar sem Destino
Os caminhos rurais que ligam Trezói às freguesias vizinhas convidam a caminhadas sem grande dificuldade logística. O relevo não é exigente, os trilhos alternam entre terra batida e calçada antiga onde as pegadas de boi ainda se entrelaçam com as marcas dos ténis. O cenário muda devagar: ora um ribeiro estreito que corre entre pedras musgadas onde as crianças apanham berbigão, ora um carvalhal onde a luz filtra em lâminas oblíquas e o chão se cobre de bolotas. Não há sinalização turística elaborada, nem painéis interpretativos — a experiência depende da disponibilidade para observar o território sem mediação, para ouvir o estalar dos gravetos sob os pés e o zumbido das abelhas nos estevais.
A gastronomia local mantém-se fiel aos produtos da região: carne de porco fumada na chaminé durante três dias, queijo de cabra que deixa marcas brancas no prato quando se derrete, broa de milho que estala na crosta mas é macia por dentro. Não existem restaurantes com nome reconhecido, mas nas mesas familiares repetem-se receitas que privilegiam o tempo lento de cozedura, o aproveitamento integral dos ingredientes, a memória gustativa transmitida entre gerações — como o ensopado de enguias da avó Albertina que ninguém conseguiu reproduzir depois dela partir.
Ao cair da tarde, quando a luz rasante doura os campos e o frio começa a apertar, Trezói revela a sua natureza mais funda: um lugar onde a vida não se anuncia, simplesmente persiste — no fumo que sobe direito das chaminés, no ladrar distante de um cão que conhece todos os passantes pelo nome, no ranger de uma porta de madeira que alguém fecha antes de a noite chegar por completo.