Artigo completo sobre Vilar Seco: onde os alambiques calaram e Paris ficou perto
Freguesia de Nelas marcada pela aguardente do Dão, vinhas de xisto e emigração para a capital france
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O cheiro a lenha mistura-se com o aroma adocicado da aguardente que já não se destila. Em Vilar Seco, os alambiques de cobre da antiga destilaria Solar da Bestança estão parados desde os anos 1970. O slogan ainda ecoa na memória de quem conheceu os tempos em que a água-ardente do Dão levava o nome desta aldeia pelo país. Hoje, as vinhas continuam a trepar os socalcos de xisto, mas mais de metade das casas fecha portas assim que termina Agosto — 60% dos naturais vive em Paris, e a freguesia respira ao ritmo das férias dos emigrantes.
A freguesia que o rei desanexou
A 24 de Agosto de 1557, D. João III elevou Villa Sicca a freguesia, desanexando-a de Santar. O topónimo medieval não mente: «sicca» vem do latim e assinala a ausência de cursos de água permanentes neste planalto cristalino a quatrocentos metros de altitude. Os ribeiros de Póvoa e Bestança só correm após as chuvas de Inverno, alimentando pequenas barragens de regadio entre olivais centenários e vinhedos da Região Demarcada do Dão. A paisagem é recortada por muros de xisto seco, matos de esteva e urze que ardem ao sol de Julho, interrompidos apenas pelo verde-escuro dos sobreiros.
A Igreja Matriz ergue-se no largo central, fachada maneirista de pedra regional lavrada no século XVI. O portal com arco de volta perfeita abre para o interior onde a talha dourada do retábulo de São Bartolomeu reflecte a luz das velas. No adro, o cruzeiro barroco de 1724 marca o ponto de partida do «Compasso» — cortejo pascal que percorre as casas abençoando lares. A poucos quilómetros, no lugar de Casal, a Capela de São Sebastião guarda azulejos setecentistas e a memória das rezas contra a peste.
Agosto é quando a aldeia acorda
A romaria de São Bartolomeu transforma o largo no fim-de-semana mais próximo de 24 de Agosto. A procissão sai da matriz ao som de foguetes, seguida pela missa campestre e pelo arraial onde a concertina comanda o vira. Debaixo da tenda da associação, fumega o caldo de São Bartolomeu — fígado de porco, enchidos e hortícolas num cozinhado denso que sabe a Beira profunda. É o momento em que os emigrantes regressam, enchem as casas fechadas o resto do ano e juntam-se na «Noite das Cantigas» de Julho para cantar desgarradas até madrugada. Mensalmente, o autocarro das compras transforma o mesmo largo em mercado ambulante — o trânsito, regulado por um espelho convexo no cruzamento sem semáforos, pára enquanto as mulheres escolhem couves e batatas.
Comer como quem está em casa de pedra
A cozinha de Vilar Seco não finge ser outra coisa. O cabrito assa em forno de lenha, o ensopado de borrego leva Queijo Serra da Estrela DOP derretido até formar fios gordos, e a chanfana de bode coze horas a fio em panela de barro. Nas vindimas, as sopas secas de trigo com fígado de porco enchem as mesas das adegas de sapateiro — caves escavadas na rocha onde os tintos de Touriga-Nacional e Tinta-Roriz envelhecem em potes de barro. A morcela de arroz, a farinheira de fígado e o chouriço de vinho do Dão pendem dos fumeiros, enquanto na despensa o doce de abóbora com mel e os tijelos — doce de ovos cozido em barro — esperam pela sobremesa.
O trilho das fontes secas
O PR3 «Rota das Fontes» desenrola cinco quilómetros entre a igreja e a capela de São Sebastião, atravessando a Fonte da Vila e a Fonte do Casal — duas fontes lavradias setecentistas onde a água corre apenas parte do ano. Ao amanhecer, os melros cantam entre as vinhas em espaldeira e os espigueiros de granito projectam sombras compridas sobre os caminhos de terra batida. A zona de caça municipal atrai caçadores de javali e coelho, mas é à noite que o planalto revela o seu maior luxo: um céu limpo onde a Via Láctea se desenha sem concorrência de poluição luminosa.
Do miradouro do Cruzeiro, com o Caramulo recortado no horizonte, o silêncio tem espessura própria. Quebra-o apenas o som distante de um tractor ou o tilintar de uma colher numa taça de barro onde o Queijo Serra da Estrela DOP se mistura com o doce de abóbora. É nesse momento — entre o sabor e a vista — que se entende porque mais de sessenta por cento dos que aqui nasceram escolhem regressar todos os Agostos, mesmo que o resto do ano a aldeia respire devagar, com os seus 668 habitantes e as casas de portadas fechadas à espera do Verão seguinte.