Artigo completo sobre Oliveira de Frades, Souto de Lafões e Sejães reveladas
União de freguesias entre rios, pedra antiga e fumeiros tradicionais no coração de Viseu
Ocultar artigo Ler artigo completo
O cheiro a lenha do fogareiro mistura-se com o fumo dos enchidos no fumeiro como quem abre a porta de um café ao mesmo tempo que o padeiro tira o pão do forno. Num quintal de Souto de Lafões, um miúdo salta o rio Sul de margem a margem — gesto que só faz sentido aqui, onde o caudal no verão fica tão magro que até a minha avó o chamava "o pula-pula do Sul". A pedra das pontes antigas aquece ao sol da tarde como o assento de uma banca de jardim, e nas encostas graníticas os carvalhos e sobreiros resistem ao assalto do eucalipto como quem guarda o lugar no café. Esta é a União das freguesias de Oliveira de Frades, Souto de Lafões e Sejães: 4006 habitantes espalhados por 22 km² de planalto que sobe e desce como o cotovelo do velho do tasco, entre os 300 e os 600 metros de altitude, onde os rios Sul e Vouga escavam vales tão fundos que até a pedra se queixa.
A estrada que levava o gado até ao mar
A antiga Estrada Nacional 16, hoje desclassificada, atravessava estas terras com um propósito: levar gado vivo de Lafões ao porto de Aveiro. Chamavam-lhe "Estrada do Boi", e o traçado ainda se lê na paisagem como cicatriz que não quer cicatrizar — entre açudes que a Câmara transformou em praias fluviais e pontes de pedra que resistem desde que o meu bisavô andava de burro. O Pelourinho de Oliveira de Frades, erguido em 1514 por ordem de D. Manuel I, perdeu a cabeça em 1893 numa rixa de terras — a peça apareceu quase cem anos depois no quintal do sr. Albino, guardada como quem guarda uma garrafa para a festa. A memória colectiva aqui tem a paciência de um cão de aldeia e o fôlego de quem sobe a ladeira com a compra ao ombro.
A reforma administrativa de 2013 juntou três freguesias como quem mete três primos à mesa do jantar — mas cada uma manteve a sua mania. Oliveira de Frades deve o nome às oliveiras e aos frades franciscanos que por cá andaram antes que o 25 de Abril fosse inventado; Souto de Lafões vem do latim saltus, floresta, e da comarca medieval que ainda hoje se discute à porta do café; Sejães ninguém sabe bem de onde vem, mas o sr. António diz que é do seixo que o rio traz nas cheias. São nomes que contam histórias como as rugas de uma mão de agricultor: pedra, água, árvore, fé — e muito trabalho.
Vitela, cabrito e chouriço no tacho de barro
A gastronomia não é nostalgia de quem nunca comeu favas com queixo — é prática viva como ir ao Aldinho buscar o pão. Quatro produtos com selo europeu marcam a mesa: Cabrito da Gralheira IGP, Carne Arouquesa DOP, Vitela de Lafões IGP e, pasme-se, Ovos Moles de Aveiro IGP — herança da ligação comercial quando os bois desciam a estrada e traziam doce na volta. No inverno, a chanfana ferve em tacho de barro sobre o lume como quem faz confissão — devagar e sem pressa. Os rojões à moda de Lafões chegam à mesa com colorau que pinta o prato como o bacalhau à Brás domingo à noite. Os enchidos — morcela, salpicão, chouriço — fumegam em lareiras de lenha que mais parecem altar a Santo António.
No primeiro domingo de cada mês, o mercado transforma a vila numa feira de vozes onde até o cão do costume se perde. Compra-se enchidos na Cooperativa Agrícola de Lafões, fundada em 1910 pelo dr. Joaquim Augusto de Souto — um republicano que percebia mais de chouriço que de política — ou prova-se vitela no restaurante O Moinho, em Souto, onde o vinho de mesa vem em garrafa de plástico mas sabe a terra como o pão da minha mãe.
Água fria, pedra quente, sombra de sobro
O Trilho do Vouga (PR3) faz 12 km entre levadas e pontes que o tempo não derrubou — partindo da capela de São Sebastião onde a minha avó ia acender velas por mim. Na encosta, a mata de carvalho tapa o granito como o xaile tapa os ombros da velha Rosa. No verão, a praia fluvial do Pessegueiro enche-se de miúdos que não conhecem o mar mas sabem que a água do açude é mais fria que a cerveja do Zé Manel. A falcoaria ainda se pratica nos soutos de azinheira — é o meu primo Henrique que mantém os falcões como quem mantém o fôlego para cantar o fado.
A Igreja Matriz guarda um retábulo barroco que o sr. padre limpa com água e vinagre — diz que é assim que se mantém a fé. As procissões descem até ao rio como quem vai buscar água ao poço. No Entrudo sobrevivem máscaras de cabeçudos e cantares de despique entre aldeias — é o carnaval que a TV não filma, onde se vai de máscara mas ninguém se esconde.
Ao fim da tarde, o eco dos passos na calçada mistura-se com o sino da igreja e o murmúrio do rio. Alguém, algures, salta outra vez o Sul de margem a margem — e o gesto fica suspenso no ar como a fumaça do cigarro do sr. Alberto, leve, preciso, impossível de repetir noutro lugar.