Artigo completo sobre Esmolfe: altitude, pedra e pastagens do Dão
Freguesia beirã a 537 metros onde vinhas, queijos DOP e arquitetura granítica marcam o quotidiano
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A estrada estreita sobe devagar entre campos lavrados e muros de pedra solta. Aos 537 metros de altitude, Esmolfe estende-se numa ondulação suave do planalto beirão, onde o vento corre livre sobre os 1087 hectares que alternam cultivo e pastagem. O silêncio aqui não é ausência — é presença espessa, pontuada pelo ladrar distante de um cão e pelo arrastar metálico de um portão.
São 382 pessoas distribuídas por um território onde a densidade humana se mede em gestos lentos e cumprimentos demorados. Trinta e seis crianças contrastam com 133 idosos, e essa aritmética reflecte-se no ritmo: as manhãs começam cedo, os cafés enchem ao meio-dia, as tardes esticam-se em conversas à porta. A freguesia respira pelo calendário agrícola, não pelo relógio.
Pedra que resiste
A Igreja Paroquial de Esmolfe, classificada como Imóvel de Interesse Público desde 1982, ancora a memória colectiva deste lugar. Construída no século XIII e profundamente alterada no século XVI, conserva ainda elementos românicos na base da torre e um retábulo-mor manuelino que chegou a ser desmontado e escondido durante as guerras liberais. A pedra granítica absorve o calor do Verão e devolve-o lentamente ao anoitecer, enquanto no Inverno as paredes espessas retêm o frio húmido que sobe do vale. As casas encostam-se umas às outras, fachadas caiadas onde o tempo deixa manchas ocres e cinzentas que ninguém se apressa a cobrir.
O sabor da altitude
Esmolfe insere-se na Região Demarcada do Dão desde 1908, quando foi delimitada por José Maria da Fonseca. As vinhas plantadas a 500-600 metros encontram nos solos graníticos e no clima de montanha protegida as condições que os produtores locais sempre souberam aproveitar: o tinto "Esmolfe" da Cooperativa Agrícola de Penalva do Castelo, feito predominantemente com Touriga Nacional, é servido no único café da aldeia a 1,20€ o copo. Mas é na pastorícia que a gastronomia local encontra o seu peso: o Borrego Serra da Estrela DOP pasta nas encostas próximas, a carne densa e aromática que chega às mesas em assados lentos no forno a lenha do restaurante "O Cacito", aberto apenas aos fins-de-semana. O Queijo Serra da Estrela DOP e o Requeijão Serra da Estrela DOP — ambos protegidos por denominação de origem desde 1996 — são presenças constantes, comprados directamente ao caseiro José Augusto que mora na Casa do Cimo, a última antes do descampado.
Horizontes que dilatam
A paisagem não oferece miradouros turísticos assinalados. Oferece amplitude: na clear-cut acima do lugar das Vinhas, onde foi abatido o pinhal em 2017, vê-se até à Serra da Estrela nos dias limpos. O caminho de terra que parte do cruzeiro de 1897 — erguido depois da cólera que levou 47 habitantes — serpenteia até ao Alto do Marco, onde se encontram as ruínas do antigo posto fronteiriço entre os concelhos de Penalva e Mangualde. Caminhar aqui exige pouco esforço físico — a elevação média não impõe desnível severo — mas pede disponibilidade para aceitar que nem tudo precisa de ser excepcional para merecer atenção.
A luz muda depressa sobre o planalto. Ao fim da tarde, o granito das soleiras ganha tons rosados, e o fumo da lareira do Sr. Alfredo — que ainda queima a lenha do sobreiro abatido no ano passado — sobe direito no ar imóvel. Esmolfe não promete espectáculo. Oferece uma cadeira de vime à sombra do catalpa da praça, um copo de tinto da Cooperativa a 1,20€, o peso do silêncio que obriga a ouvir o próprio pensamento.