Artigo completo sobre Germil: vinhas do Dão e fumeiro de altitude
Germil, em Penalva do Castelo, Viseu, vive ao ritmo da Região Demarcada do Dão. Vinhas, fumeiro artesanal e produtos DOP Serra da Estrela definem esta alde
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A vinha sobe a encosta em patamares estreitos, cada linha apoiada no muro de xisto que o tempo foi fazendo. Ainda não é hora de cortar: as uvas ganham cor, mas a polpa ainda é firme quando se espreita entre os dedos. No ar flutua o cheiro a terra queimada pelo sol e, nas manhãs sem vento, nota-se o leve azedo do mosto que escorreu para o chão na noite anterior. É Setembro em Germil: o mês em que a aldeia respira ao ritmo da Região Demarcada do Dão.
O território que se come
O queijo vem ainda morno da chèvreira de dona Albertina — não é dos que se vende na estrada, é para quem bate à porta. A crosta é fina, a pasta quase branca, e o sabor deixa na boca um rasto de ervas altas e tojo. Quando há borrego, é servido no domingo seguinte à missa das onze, grelhado com só sal grosso e um fio de azeite caseiro que o primo trouxe de Lourosa. Não há menu nem horário: pergunta-se à porta de quem fuma o chouriço, se sobra um naco para levar.
Nas costas da aldeia, os olivais são pequenos, meio abandonados, mas ainda dão azeitonas que se levam ao lagar de Tondela em caixas de plástico azul. O azeite é amargo, pica na garganta — bom para molhar pão no café da manhã, melhor ainda para refogar o jiló que nasce na horta ao lado da adega.
Rotina entre vinha e adega
Quando o sol bate na parede leste da Igreja, sabe-se que são nove e meia. É o sinal para o Zé Mário ligar o tractor: ouve-se primeiro a descarga, depois o ranger da caixa na subida da estrada de terra. Durante o dia só passam mais dois carros — um do padeiro, outro do veterinário. As crianças foram todos para a escola de Penalva, as mulheres para a fábrica de Guardão ou para o lar de idosos de Penalva. Fica quem tem vinha, fica quem tem medo que lhe roubem os cabritos, fica quem já não tem para onde ir.
Na vindima, porém, a aldeia enche-se. Os filhos chegam de Lisboa na sexta à noite, trazem caixas de plástico novas e mãos moles que rapidamente ganham bolhas. A uva é colhida debaixo de sol ou de chuva fina — não espera. Ao cair da tarde, os cestos sobem para as adegas onde o caldo já borbulha nos lagares abertos. O cheiro é doce, pesado, entranha-se na roupa como incenso. Quando o mosto baixa, guarda-se um jarro para o lanche da manhã seguinte: migas de pão escuro, regadas com mosto, comem-se de pé, com os dedos.
Depois da vindima, volta o silêncio. As folhas da vinha enrugam-se e caem, os lençóis de arame ficam à mostra como costelas. O vento que sobe do Vouga traz cheiro a eucalipto queimado e, logo à noite, o primeiro frost que se agarra ao capote ao sair da tasca. Dentro das adegas, o vinho dorme a sono brando, a madeira estala quando o luar aquece o barril. Lá fora, Germil reduz-se ao estalo de uma porta, ao latido longínquo de um cão, ao cheiro a lenha úmida que já ninguém regista — mas que, mesmo assim, continua ali.