Artigo completo sobre Trancozelos: ruínas medievais na Beira Alta de Viseu
Freguesia de 247 habitantes guarda templo do Santo Sepulcro protegido por D. Teresa e Afonso Henriqu
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A pedra surge em blocos irregulares à beira do caminho, granito cinzento que o musgo coloniza pelas fendas. Trancozelos desenha-se numa colina suave, a 472 metros de altitude, onde o silêncio só é interrompido pelo vento que atravessa os vales e pelo sino que marca as horas na igreja de São João Evangelista. Aqui, na Beira Alta, o território respira devagar: 247 habitantes distribuídos por 512 hectares, casas de granito agrupadas em torno da estrada municipal 566 que serpenteia entre pomares e vinhas do Dão.
O templo que viu D. Teresa
Na Quinta do Mosteiro, as ruínas do que resta do Mosteiro de Trancozelos erguem-se como memória de pedra. Classificado Monumento Nacional em 1922, este foi um dos primeiros templos da Ordem do Santo Sepulcro na Península Ibérica, doado por D. Afonso Henriques em 1139 e confirmado por sua mãe, D. Teresa, em 1125. O granito desagrega-se lentamente, mas os arcos resistem, testemunhando uma importância histórica que desafia o tamanho modesto da freguesia. O nome Trancozelos deriva do galaico "tranco" — obstáculo, entrave —, palavra que faz sentido nesta geografia de vales profundos e encostas que travam o passo.
A Igreja Paroquial, reconstruída em 1758 depois do terramoto de 1755, mantém a missa dominical às 11h30. Trancozelos é uma das poucas freguesias do concelho de Penalva do Castelo sem tradição de festividades públicas registadas - nem arraial, nem romaria, nem procissão. O calendário organiza-se pelo ciclo agrícola e pastoril: as vindimas em setembro-outubro, a transumância que ainda marca o território quando as ovelhas descem dos campos de altitude em maio, a produção do queijo nos meses frios entre novembro e março.
Queijo, borrego e vinho do Dão
A mesa local reflecte a proximidade com a Serra da Estrela. O Queijo Serra da Estrela DOP chega curado, com aquela textura cremosa que se espalha no pão de centeio que Severina ainda coze no forno comunitário todas as sextas-feiras. O Requeijão Serra da Estrela DOP acompanha as refeições, e o Borrego Serra da Estrela DOP transforma-se em chanfana no restaurante O Cimo do Marão, cozinhado lentamente em vinho tinto do Dão até a carne se desfazer. Os enchidos fumam nos fumeiros de granité, perfumando o ar com o cheiro a lenha de carvalho que o Sr. Armindo traz do seu souto. À mesa, o vinho do Dão — tintos de touriga nacional e encruzado — completa a refeição com aquela acidez frutada característica da região demarcada. O branco de encruzado do Quinta da Pellada bebe-se à temperatura da adega, entre 12-14ºC.
Caminhos entre vales
Os trilhos rurais atravessam a freguesia, ligando Trancozelos às aldeias vizinhas através de caminhos de xisto entre vinhas e pastagens. O trilho do Ribeiro de Trancozelos, com 4,3 km, desce até ao ribeiro que desagua no Dão, escondido pela vegetação de carvalhal e pinhal que coloniza os solos graníticos. Não há parques naturais classificados, mas a paisagem rural organiza-se num mosaico de pomares de cereja e amendoeira, muros de pedra solta construídos entre 1920-1940 durante as obras da Emigração, e casas de arquitectura tradicional com platibanda de xisto. Perdizes, lebres e javalis movem-se pelos campos, e o único alojamento - a Casa do Brigadeiro, antiga casa da guarda florestal - permite pernoitar no centro deste território de baixa densidade.
O eco dos passos nas ruínas da Quinta do Mosteiro mistura-se com o murmúrio distante da água. Quando o sol rasante da tarde aquece o granito, a pedra liberta o calor acumulado e o ar cheira a terra seca, a vinha madura, a resina de pinheiro. Trancozelos não pede pressa - pede atenção aos detalhes que só se revelam a quem caminha devagar.