Artigo completo sobre Beselga: vinhas e xisto a 731 metros de altitude
Aldeia de Penedono onde 270 habitantes vivem entre socalcos e a memória das festas de São Pedro
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A pedra da entrada da aldeia ainda arde quando o sol se põe, mesmo que o vento traga o fresco das urzes. Aos 731 metros, Beselga está acima das nuvens de Verão que se agarram aos vales do Távora. As casas de xisto não "se agarram" — estão fincadas como se as gerações as tivessem cravado na encosta com pás e pica-mão. São 270 almas, sim, mas em Janeiro parecem cinquenta: só se ouve o raspar das galinhas nos pátios e o estalar da lenha queimada nas lareiras.
A geometria do despovoamento
Não é "geografia humana em contração" — é a vizinha Maria do Carmo que já não tem com quem falar à janela. 111 velhos, 10 crianças. Os números traduzem-se assim: a escola fechou há dez anos e hoje serve de arquivo para as caixas de mudança dos emigrantes. Quem passa às quatro da tarde vê portas entreabertas, cadeiras de vime na soleira e um gato que já não tem dono. Os caminhos de pedra solta são trilhos de javali agora; as vinhas abandonadas serviram para o vizinho fazer uma parede na nova casa em Lamego.
Dois tempos de romaria
São Pedro, 29 de Junho — dia de ir à fonte lavar a cara com "água de ramo" e de comer sardinha que o clube de futebol compra no Fundão. A romaria da Cabeça, sim, mas os beselgenses dizem "vamos à Capela" como quem vai à mercearia. É no domingo mais próximo de 15 de Agosto. Os filhos que vieram da França trazem erva-doce e manteiga; os netos choram porque não há Wi-Fi. À noite, o adro cheira a gasolina dos geradores e a açúcar queimado dos farturas. No dia seguinte, sobram cadeiras dobradas e garrafas de Super Bock vazias que o padre guarda para o próprio ano.
Vinha em altitude
Não é "região demarcada do Douro", é a parcela do Sr. Joaquim: 80 cepas de rufete plantadas onde a mula já não sobe. A uva amadurece em Outubro, dias antes do São Martinho, e os pássaros comem metade. O vinho fica com gosto de xisto e de noite comprida — ninguém aquém de Miranda o quer comprar, por isso vai à mesa de Natal em Viseu, trazido pela filha que "fez engenharia". As vinhas novas são da cooperativa de Penedono: plantaram-se em 2018, subsidío de 3 500 € por hectare, mas a neve de 2020 levou-as todas.
Logística da solidão
Quem vem de fora pensa que é o fim do mundo — são 19 km de Penedono, mas demoram 35 minutos porque há três vacas na estrada e o camião do leite não dá passagem. O autocarro é às 7h15 (não 7h20, não 7h10) e só leva 12 passageiros; se chove, fica em Sernancelhe. Quem se esquece do pão come bolachas até à terça. Quem precisa de remédios depois das 19h chama a ambulância de Trancoso e espera — contaram-me que uma vez foi duas horas porque o motorista não encontrava a aldeia no GPS.
O sino bate seis badaladas e o som sobe pelo adro de calçada rangente, desce depois pela ravina onde cresce o losna. Durante três segundos, até o cão do Almocreve deixa de ladrar. Depois volta o silêncio — o mesmo de sempre, que cheira a estilha de castanheiro e a fumeiro de chouriço.