Artigo completo sobre Castainço: pedra, altitude e colchas bordadas a 819m
Castainço, em Penedono, Viseu, ergue-se a 819m entre serras milenares. Igreja erguida contra a peste, colchas bordadas à mão e romaria de agosto definem a
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O vento sobe pelo vale e traz consigo o cheiro a mato seco e a lenha de carvalho que ainda fica na roupa dias depois. Aqui, a 819 metros de altitude, Castainço agarra-se à encosta como quem tem medo de cair - as serras da Laboreira e do Rebolado servem de muro, mas também de prisão. São 128 pessoas, mas na prática são menos, porque o Domingos foi para França e a Amélia só cá vem no verão. As casas de xisto escuro estão mais vazias do que cheias, os telhados de ardósia brilham quando o sol da tarde os apanha de lado, mas muitos já não têm dono.
Pedra erguida contra a peste
A Igreja de São Sebastião não foi obra de mestres - foram os pais dos nossos pais que a ergueram, pedra sobre pedra, depois da peste levar metade da aldeia. Ainda se vê onde o António errado a medida, onde o José não conseguiu endireitar a parede. As juntas são tortas como os dedos do João carpinteiro. Em cima, a Capela de Nossa Senhora tem um altar dourado que parece não pertencer àquela pobreza toda, mas é lá que a velha D. Rosa vai todas as tardes acender uma vela para o neto que está no Porto.
Linha e lã nas mãos certas
As colchas de Castainço ainda se fazem, mas já não são como as da minha avó. Agora é a Ana, que aprendeu com ela, que borda enquanto espera que o filho ligue de Suiça. Os padrões são os mesmos - os losangues verdes que parecem vinhas, os vermelhos que são o sangue da terra - mas já ninguém as mete nas arcas. Estendem-se nas varandas a arejar, e quando passa alguém que conhece a obra, param para falar do tempo e da saudade. A lã vem das ovelhas do Zé Manel, que ainda tem trinta, mas já não sabe por quanto tempo.
Agosto no alto da serra
No primeiro fim de semana de agosto, a aldeia engorda. Os carros sobem a encosta como formigas, trazem os que partiram, os filhos que já nem sabem falar como a gente. A Capela enche-se de gente que se não viu há um ano, mas que se conhece desde sempre. O chouriço é do porco do Alberto, o vinho é do Douro mas sabemos todos que veio da adega do tio. Os foguetes assustam os cães que passaram o ano inteiro sem ver tanta gente. Depois de três dias, a aldeia fica mais vazia do que estava, e o silêncio custa mais que o costume.
O peso do silêncio
Caminhar por Castainço é contar casas fechadas. A do sr. Adriano tem as janelas tapadas com tábuas, a da D. Madalena tem a porta entreaberta mas já ninguém entra há anos. O fumeiro do outro lado da rua fumegava todos os Invernos, agora só faz lembrar o cheiro. A horta da minha mãe ainda produz tomates, mas ela já não consegue curvar-se para os colher. O clima é o mesmo de sempre - Invernos que doem nos ossos, Verões que queimam a terra - mas agora há ar condicionado nas casas que têm gente. A Junta funciona na Rua das Porteiras, mas a D. Lurdes só lá vai às segundas, porque é quando vem o médico. Segundo os papéis, esta aldeia já quase não existe, mas nós continuamos cá, a aquecer-nos ao sol que a pedra guardou do dia anterior, a fingir que isto ainda é uma aldeia viva.