Artigo completo sobre Souto: três pontes de granito sobre a ribeira
Igreja barroca, trilhos entre castanheiros e chanfana de bode na mesa serrana
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O sino da igreja de São Pedro bate as seis e o seu som perde-se no vale como quem vai à taberna e não diz para onde vai. A Ribeira de Souto está lá em baixo, entre castanheiros, mas não se vê — ouve-se. Cheira a lenha queimada, aquele aroma que só quem tem lareira verdadeira conhece. Aqui, a 631 metros de altura, o silêncio pesa. Não é falta de ruído, é sobra de espaço. Os muros de granite agarram a luz do fim do dia como quem guarda o último cigarro para depois do jantar.
Terra de três pontes e uma ribeira
Dizem que Souto é a "Terra das Três Pontes". A única com estatuto é a da Ribeira — setecentista, de granite miúdo, com aquele arco perfeito que faz lembrar as costelas de um bom vinho. As outras duas são mais modestas, mas servem. Passaram por aqui tropeiros que iam da Beira ao Douro, antes da A25 lhes estragar o ofício. A água corre entre pedras, faz poços naturais e ainda se vê truta — a autêntica, não essa de cativeiro que parece peixe de loja. O trilho da ibeira tem seis quilómetros e sobe até à capela da Cabeça. Leve calçado com bom solado, que a pedra está sempre molhada e os fetos não avisam quando está escorregadio.
A igreja é barroca, do século XVIII, com aqueles retábulos dourados que fazem lembrar o joalheiro do Penedono quando cobra demasiado. Os azulejos contam histórias da Bíblia em azul desbotado — mais vale saber o fim, porque o tempo apagou os detalhes. Lá acima, no outeiro, a capela de Nossa Senhora da Cabeça é como as pessoas daqui: simples, sem enfeites, mas aguenta-se de pé. No primeiro domingo de maio sobe-se a pé, canta-se ladainha e leva-se o bucho para comer depois. Quem não gosta de procissão vai mesmo assim — é dia de encontrar gente que não se vê desde o casamento da Laura.
Chanfana, bucho e castanhas
À mesa, Souto não faz pose. A chanfana leva horas — bode, vinho tinto, colorau e os tais cheiros que ninguém revela. É daquelas receitas que se faz em tachos de barro herdados da avó, que se não partir foi porque não foi usado. O bucho é de porco preto, recheado com farinha de milho e alho. Come-se quente, com as mãos, e arrepia só de pensar. A truta da ribeira vai para a caldeirada com batata e cebola — não é restaurante, é casa de família. Para acabar, doce de abóbora com mel ou bolinhos de noz. O vinho branco do Douro desce que nem reclama.
O mapa-múndi pintado em madeira
Na antiga escola primária há um mapa-múndi de 1935 pintado em tábua. É único no distrito — como aquele primo que nasceu com dois dentes. Tem os continentes ao contrário e o Atlântico maior que o Pacifico, mas está lá. Com 288 habitantes, Souto é a freguesia menos populosa de Penedono, mas ainda se fazem miúdos. Em 2021 caiu tanta neve que a aldeia ficou três dias incomunicável. A RTP veio, filmou, foi embora. Quem cá estava lembra-se do silêncio — aquele silêncio branco que até faz cócegas.
Quando a noite cai e as luzes vão acendendo uma a uma, o céu abre-se todo estrelado — não há candeeiros a estragar a vista. Lá em baixo a ribeira continua a correr, e o vento traz cheiro a terra molhada e a castanhas caídas. Se vier, traga bons sapatos e fome. O resto a gente arranja.