Artigo completo sobre União de Anreade e Aregos: socalcos de xisto no Douro
Vinhas em patamares, muros secos centenários e memória rural entre os 90 e os 600 metros de altitude
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O som da pedra no Douro soa abafado, como se viesse de dentro da terra. Lá em baixo, a 90 metros de altitude, o rio faz a curva preguiçosa; aqui em cima, nos socalcos de xisto que sobem até aos 600 metros, o vento traz o cheiro a terra mole e a fumo de lenha onde o cabrito está a ganhar crosta. Entre Anreade e São Romão de Aregos, a paisagem é um degrau atrás do outro — vinha, olival, laranjais —, cada nível segurado por muros secos que ninguém sabe bem quando começaram, mas que agora têm estatuto de Imóvel de Interesse Público. Não é cenário: é trabalho de séculos, pedra sobre pedra, para que a terra não fugisse.
A vila de Sancti Romano
São Romão aparece no século X como «villa de Sancti Romano», uma das primeiras referências do concelho de Resende. A ermida de São Romão deu origem à povoação, que cresceu sob a protecção do Mosteiro de Cárquere e integrou, até ao século XIX, o extinto concelho de Aregos. Anreade, que vem de «Anra» — nome de uma família de senhores medievais —, juntou-se formalmente em 2013. A Igreja Matriz de São Romão, de nave única e retábulo barroco, tem aquele cheiro a cera e a roupa guardada que só as igrejas do tempo dos nossos avós têm. Mais acima, a capela de Nossa Senhora da Guia coroa o alto da freguesia: durante décadas, a luz das velas no adro servia de referência aos rabelos que subiam o Douro carregados de vinho.
Vinho, pedra e água
A vinha ainda é o que sustenta a terra — sub-região de Baião, castas Avesso e Azal —, mas há também cereais de sequeiro e gado que pastoreia entre os muros. Em Anreade há um lagar de madeira com rodízio de 1784 que ainda sai à rua nas festas. Quem quiser pode beber Vinho Verde directamente do cask: é ácido, faz estremecer a molinha, e é assim que se percebe que aqui o vinho não é para levar à letra. O ribeiro da Cesta faz cascatas que se ouvem antes de se verem no trilho PR3, um percurso de 8 km que liga a capela da Guia ao Penedo do Sino. Passa-se por sobreiros e azinheiras, por espigueiros com a madeira rachada pelo tempo, e de repente o Douro aparece todo, largo, como quem não quer nada.
Calendário de romarias
O último domingo de agosto é da Nossa Senhora da Guia: procissão com velas, baile na esplanada improvisada, foguetes que rebentam no ar e fazem as crianças chorar. Em setembro, Anreade celebra Nosso Senhor do Calvário com missa campal e magusto; em maio, os romeiros vão a pé até Santa Maria de Cárquere, como se o mosteiro ainda fosse seu. Em agosto, a Festa de Santa Maria de Barrô leva a imagem de barco pelo Douro — remos na água escura, cânticos a subir as encostas. No domingo de Páscoa, o Círio das Velas: as mulheres sobem à capela da Guia com círios de cera, a chama a tremer, os pés a encontrar os buracos da calçada. Os ranchos folclóricos ainda fazem o Vira do Douro e os Pauliteiros de Anreade, com gaita-de-foles e bombo — som que se perde no vale e volta eco.
Mesa e forno
A Carne Arouquesa vem grelhada ou estufada em vinho tinto, tenra como pouca. O cabrito vai ao forno de lenha, só com sal grosso e alho, e acompanha-se com batata murcha e Avesso bem fresco. Os enchidos — salpicão, paio, morcela de arroz — pendem dos fumeiros; o pão-de-ló de São Romão, húmido e com a crosta fina, leva mel das Terras Altas. Ao fim da tarde, quem vier pela estrada municipal entre as duas aldeias pode parar nos miradouros de Penedo do Sino e Esculca, deixar o motor arrefecer e ouvir só o vento e, lá ao fundo, o rio que não se vê mas se sente.
A luz da tarde pega nos socalcos de vinha, o xisto fica dourado, as sombras esticam-se sobre os muros. Nessa hora, o Vale do Douro não é postal: é trabalho vivo, metro a metro, feito por mãos que sabiam o peso da pedra e a inclinação para a água não levar a terra. Quem ficar até ao crepúsculo vê o rio escurecer devagar, enquanto o cheiro a lenha sobe das chaminés e avisa que é hora de jantar.