Artigo completo sobre Cárquere: Mosteiro Românico e Romaria no Montemuro
Torre sineira de 1150 e procissão de 15 freguesias marcam a identidade desta aldeia de Resende
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O granito da torre românica ganha tom mel ao fim da tarde, quando o sol poente atravessa os carvalhos e toca a pedra do Mosteiro de Santa Maria de Cárquere. A meio caminho entre o vale do Douro e os cumes do Montemuro, a 510 metros de altitude, esta freguesia de 746 habitantes vive num equilíbrio raro: guarda mais de cem moedas romanas no subsolo e celebra a romaria maior no quarto domingo de maio, quando 15 freguesias sobem em procissão até à igreja onde, segundo a lenda, D. Afonso Henriques terá sido curado de um aleijão ainda criança. O vento norte traz o frio no Inverno e o aroma a lenha de carvalho; no Verão, o cheiro a carqueja aquecida ao sol mistura-se com o som grave dos sinos que descem do campanário de 1150.
O mosteiro que guarda oito séculos em pedra
A igreja monástica concentra camadas de tempo visíveis a olho nu. A torre sineira, com abertura românica decorada por capitéis de aves, data do segundo quartel do século XII; a abóbada de nervuras góticas da capela-mor foi erguida nos finais do século XIII; o portal manuelino, com arco de volta perfeita e decoração vegetalista, abre-se desde o século XVI. No interior, sob a luz filtrada pelas frestas estreitas, quatro arcas tumulares de granito ostentam as armas dos Resendes — família que fundou o mosteiro — e dezenas de lápides funerárias romanas estão embutidas nas paredes, testemunho do oppidum que aqui existiu desde o século II a.C. As pinturas murais manuelinas mostram Santo António, Santa Luzia e anjos de asas abertas; a Virgem de Cárquere e a Virgem do Leite, talhadas em madeira policromada, presidem ao altar. Entregue aos jesuítas em 1541 e depois à Universidade de Coimbra em 1759, o mosteiro conserva no silêncio da nave o eco de oito séculos de oração e peregrinação.
Romaria, cramóis e chula ao desafio
A romaria de maio organiza-se desde cedo: missa matinal na capela de Santa Luzia, ladainhas cantadas pelas 15 freguesias que sobem em procissão, missa solene presidida pelo Bispo de Lamego e crismas administradas no adro. Antes da mecanização agrícola, praticavam-se os cramóis — clamores em procissão para pedir chuva e protecção das colheitas —, enquanto a Chula Rabela, dança ex-líbris do Douro, era executada ao som da rabeca e cantada ao desafio entre homens e mulheres. A Sexta-Feira Santa percorre-se a Via Sacra de cruzeiros de granito que liga o mosteiro à capela de São Francisco, entre muros de xisto e vinha podada; no Corpo de Deus, a procissão contorna o carvalhal. Em Agosto, o Festival Internacional de Folclore traz grupos de toda a Europa ao largo do mosteiro, onde o som dos concertinas se mistura com o chilrear das andorinhas ao entardecer.
Cabrito, enchidas e vinho de altitude
A cozinha aproveita a Carne Arouquesa DOP em chanfana e guisados lentos, o cabrito assado em forno de lenha e a feijoada à transmontana com feijão vermelho e unto. As enchidas — chouriço, alheira, salpicão — curam nos fumeiros das casas velhas; o pão de milho acompanha o caldo verde e os rojões à moda do Minho. A freguesia integra a sub-região dos Vinhos Verdes, produzindo brancos leves e frescos em vinhas de encosta, mas algumas quintas familiares, como a Terrus Winery, elaboram também vinho do Douro com uvas de altitude. O Mel das Terras Altas do Minho DOP, colhido nos apiários entre carqueja e giesta, adoça o pão de ló e as cavacas; o bolo de carqueja — massa frita polvilhada com açúcar — serve-se nas festas de Verão com vinho quente temperado com canela.
Carvalhais, ribeiros e penedos curativos
A paisagem desenrola-se em vertente norte, entre os 400 e os 600 metros, dividida em pequenas parcelas de vinha, olival e pastagem. Carvalhais de folha caduca alternam com sobreiros e pinhais; a carqueja cobre os baldios em tapete espinhoso que floresce amarelo na Primavera. O ribeiro Taquinho e o rego do Boi — que a lenda atribui aos mouros ou a D. Afonso Henriques — cortam a freguesia, alimentando moinhos de rodízio horizontal e levadas de rega. No Penedo do Medorro, outeiro que já foi castro pré-celta e oppidum romano, as águas pluviais acumulam-se em cavidades naturais: a crença popular diz que curam cravos e verrugas. Os trilhos rurais ligam Serradinho, Corvo e Tulhas entre muros de xisto seco, oferecendo panorâmicas sobre o vale do Douro e os contrafortes do Montemuro, onde ao entardecer planam águias-de-asa-redonda.
Ao cair da noite, quando o mosteiro se ilumina e o granito da torre ganha contornos quase irreais sob a lua cheia, ouve-se apenas o vento nos carvalhos e, ao longe, o ladrar de um cão qualquer que late para o alto. É nesse silêncio espesso, interrompido de hora a hora pelo badalar dos sinos que parecem descer do céu, que se percebe porque é que as 15 freguesias continuam a subir a pé, cantando ladainhas, até este promontório onde Roma, D. Afonso Henriques e a Virgem de Cárquere partilham o mesmo chão de pedra.