Artigo completo sobre Ovadas e Panchorra: Onde o Silêncio Tem Altitude
Entre a Serra de São Macário e o Douro, duas aldeias unidas pela paisagem e pela carne arouquesa
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O vento sobe a encosta antes de qualquer som. Desde os cerejais ainda nus de Março até aos muros de xisto que guardam os lameiros, leva com ele o cheiro da terra virada e o rumor longínquo da Ribeira de Panchorra. A 940 metros, a aldeia desenha-se como uma faixa de casario perdida entre a Serra de São Macário e o vale do Douro — tão vazia (283 almas em 23,8 km²) que o silêncio se torna matéria: sente-se na pele quando a noite cai e só se ouve o cão do Sr. Arnaldo a ladrar ao longe.
O que fica do nome
Dizem que Ovadas vem de "ovis", ovelha em latim. Basta ver os campos a perder de vista para perceber: há sempre um rebanho a pastar, sempre um pastor a apontar os tempos pela sombra do castanheiro. Panchorra é mais enigmática — os velhos falam em "pancho", tipo de solo, mas ninguém lhes dá muita fé. O que importa é que ambas as aldeias existem há séculos (registos de Ovadas já em 1728) e que, desde 2013, partilham o mesmo presidente de junta e o mesmo problema: como manter as escolas abertas quando só nascem dois bebés por ano.
O que se come (e bebe) por aqui
Às sextas-feiras, a pastelaria da Tia Albertina ainda faz pão de ló como na foto da avó — bafo de ovo e açúcar que se sente na rua. No verão, as cerejas maduras caem para o chão porque faltam mãos para as colher. A Carne Arouquesa vem das vacas castanhas que pastam nos lameiros altos; o mel é da serra, tão escuro que parece xarope de noite. Tudo se lava com vinho verde de Baião, feito em lagares de granito onde o João ainda pisa a uva descalço — "para sentir se está doce", diz ele.
Onde se perde o fôlego
O trilho da Ribeira de Panchorra começa mesmo na porta da casa da D. Rosa: segue os muros de xisto, passa pelo moinho onde o neto dela brincava às escondidas, e termina no poço onde as mulheres lavavam a roupa quando ainda não havia máquinas. Mais acima, o miradouro é um rasgão no ar — nos dias sem nevoeiro, avista-se Mesão Frio e até o Douro a fazer curva. Em Março, as cerejeiras em flor são um nevoeiro branco que dura quinze dias; depois, o vento leva tudo e ficam só os troncos nus como ossos.
As festas que ainda aguentam
Nossa Senhora da Guia é em Maio — há procissão, sim, mas o que interessa é o arraial na carpa do clube de futebol onde o DJ pôe pimba até às três da manhã. A romaria a Santa Maria de Cárquere é diferente: atravessa-se a ponte romana a pé, vai-se de chapéu de palha porque o sol castiga, e no fim reparte-se broa com chouriço entre os carros estacionados na bermuda. São quatro festas por ano, mas chegam para marcar o tempo: "antes da festa da Guia", "depois da romaria", é assim que se contam os meses.
Quando o sol se põe atrás de São Macário, o granito das capelas fica cor de mel e as vacas voltam ao curral ao som das chocalheiras. Fica o cheiro da lenha que ainda arde nas lareiras, o frio que sobe dos vales, e — às vezes — o sino da igreja a bater as seis, eco como uma voz que chama por quem partiu e nunca mais voltou.