Artigo completo sobre São Martinho de Mouros: medieval, vinhas e granito
Mercado Medieval em agosto, Carne Arouquesa DOP e 4 monumentos classificados na Beira Alta
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A praça enche-se de fumo de madeira húmida e o cheiro a costela a condizer com o aroma a mel que se agarra à roupa. É agosto, e São Martinho de Mouros faz aquilo que sabe fazer há séculos: mete a mesa na rua. Desde 2023 que o Mercado Medieval lhes serve de desculpa para pôr os escudos de lado e encher o copo. Entre bancas de cerveja artesanal mal disfarçada de hidromel e miúdos aos trambolhões com capas de lã, a freguesia de 1333 abre as portas a quem vem de fora — e não é preciso ser historiador para perceber que aqui o tempo foi deitado às urtigas.
O peso dos séculos
As primeiras referências escritas a São Martinho de Mouros datam do século XIII, quando o que contava era o número de cabras e de olmas de pão que cabiam na cesta. A 383 metros de altitude, a freguesia estende-se por quase 1441 hectares onde o granito é buraco e os vales se sucedem como costuras num cobertor. Quatro monumentos classificados — um deles Monumento Nacional, três Imóveis de Interesse Público — testemunham que aqui já passaram romanos, visigodos e outros que tais. Não há autocarros de japoneses: a densidade de 92 habitantes por quilómetro quadrado traduz-se em caminhos onde se ouve o cão ladrar duas aldeias adiante e no silêncio que só se parte ao domingo, quando a missa das 11 atrasa o café.
Vinhas, carne e mel
A cozinha é o que a terra dá, sem folclore. A Carne Arouquesa DOP vem de vacas que passaram a vida a subir e descer a serra — nota-se na cor e no sabor, não precisa de molho. O Mel das Terras Altas do Minho DOP é tão espesso que se aguenta na faca como manteiga; colher demais e o pão fica escorregadio. E como isto é região de vinho verde, serve-se branco para cortar a gordura ou tinto para acompanhar o ensopado; o copo vai-se enchendo e a conversa também.
Durante o Mercado Medieval, a Praça da Alimentação transforma-se numa tasca ao ar livre. Não há fusão nenhuma: pão com chouriço assado no ferro, costela fumada que se desfaz na boca, queijo de cabra com raminho de oregãos. Uma banda de garotos toca pandeireta e pifaros, e os miúdos arrastam os pais para a roda como se fosse a última festa do ano.
Calendário de romarias
A fé marca o calendário, mas é também desculpa para rever família. A Festa de Nossa Senhora da Guia, a Festa de Nosso Senhor do Calvário e a Festa de Santa Maria de Barrô distribuem-se ao longo do ano, cada uma com a sua procissão de luzes, o seu arraial com bilhetes de rifa e as promessas que se pagam com um cirio. A Romaria a Santa Maria de Cárquere leva os fiéis a atravessar a ponte romana a pé, conversa com o vizinho do lado e promete voltar no ano que vem. Nessas noites, a população oficial duplica: aparecem emigrantes com matrícula francesa, enchem-se as casas, o forno da aldeia não para e a fila do café dá volta à praça.
Onde o futebol também conta
Numa terra onde 412 pessoas têm mais de 65 anos e apenas 118 não chegam aos 15, o CDRC São Martinho de Mouros funciona como ponto de encontro entre quem ainda corre e quem já só apita. O clube de futsal tem levado a sério o bolo-rei do distrito e traz à freguesia uma visibilidade que surpreende até o presidente. Nos dias de jogo, o pavilhão fica tão cheio que se perde a carteira no banco, os gritos ecoem até ao cruzamento, e o resultado decide quem paga o próximo café.
Dormir entre montanhas
A Casa Cardoso é uma das quatro moradias que alugam quartos com vista para o Marão. Tem um jardim onde o tempo se mede pelo canto do melro e pelo momento em que o sol bate no portão. Serve de base para quem quer caminhar até ao Mosteiro de Cárquere sem levar chapéu de chuva na mochila, acordar com o orvalho na relva e ver o trator do vizinho a lascar a terra às oito em ponto.
Quando o Mercado Medieval acaba e as tochas se apagam, fica o cheiro a fumo agarrado às pedras da praça. E o eco de um tambor que, se calhar, nunca esteve ali — mas que agora faz parte do inventário, como o cão do café e a senhora que vende mel na porta da igreja.