Artigo completo sobre Santa Comba Dão: Entre Torres Barrocas e Margens do Dão
Vila medieval onde o granito, as vinhas e o rio moldaram séculos de história junto ao Dão
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O granito polido da calçada devolve o sol de meio-dia enquanto o sino da torre barroca marca as horas sobre o casario. No Largo do Município, a água escorre do chafariz de 1887 com um murmúrio constante que se mistura ao rumor distante do Dão. Santa Comba Dão ergue-se entre margens de rio e encostas de vinha, uma vila que desde o foral de 1202 aprendeu a fazer da pedra e da água os seus alicerces.
Pedra que conta séculos
O traçado medieval revela-se na Rua da Cadeia e na Rua Direita, onde a luz rasante da tarde desenha sombras compridas nos muros caiados. A Igreja Matriz, reconstruída após o terramoto de 1755, ergue as suas duas torres sineiras sobre o casario - a fachada barroca contrasta com a sobriedade renascentista da Igreja da Misericórdia de 1583. Entre ambas, a Casa dos Arcos, propriedade dos condes de Castelo Melhor, guarda memória de D. Carlos que aqui pernoitou em 1901 - hoje transformada em biblioteca municipal, mantém o peso silencioso de quem já viu partir cortejos e procissões. No Largo do Município, o pelourinho do século XVI testemunha a autonomia concelhia que o bispo D. Gonçalo Pais conferiu a estas terras em 1321, unindo Vimieiro e Rojão às margens do Dão numa só paróquia.
Onde o rio nivela a paisagem
O Dão atravessa a freguesia desenhando a Ribeira das Hortas, domesticada pelo açude de 1956 que transforma a corrente em espelhos calmos. A Ponte de Pedra de 1893 e os passadiços de madeira construídos em 2018 convidam a percorrer a margem, enquanto o Miradouro do Outeirinho oferece uma vista ampla sobre o vale - vinhas da Quinta da Pellada e da Quinta dos Roques descendo até à linha prateada da água. A Praia Fluvial da Senhora da Ribeira, inaugurada em 2005, abre-se numa enseada onde o rio abranda, o areal fino contrastando com a frescura da corrente. Mais além, a Ecopista do Dão, aberta em 2011 sobre o antigo leito ferroviário da linha do Vouga, ladeada por choupos e salgueiros que projectam sombras intermitentes sobre o asfalto.
Sabores que vêm do rio e da vinha
A caldeirada de peixe do Dão e Criz traz à mesa o sabor da água corrente - achigãs e bogas cozinhados com batata e coentros no Restaurant "A Taberna", o caldo espesso absorvendo o pão de milho da Padaria Central. O arroz de lampreia à moda do Dão surge na Primavera, denso e escuro, temperado com o sangue do peixe que sobe o rio para desovar. Nas confeitarias, as broinhas doces de Santa Columba - a receita vem do Convento das Concepcionistas que aqui existiu até 1834 - mantêm-se redondas e douradas, polvilhadas de açúcar. E porque a freguesia se insere na Região Demarcada do Dão desde 1908, os tintos encorpados da Quinta da Pellada e os brancos frescos da Quinta dos Roques acompanham todas as refeições, cada garrafa carregando o xisto e o granito das encostas.
Caminhos que atravessam o tempo
O Caminho de Torres, uma das variantes portuguesas do Caminho de Santiago, corta a freguesia desde 2015, levando peregrinos pela margem do rio e pelos campos de vinha. Alguns caminham sozinhos, outros em pequenos grupos, as botas levantando pó nas estradas de terra batida que ligam Santa Comba Dão ao Couto do Mosteiro - distância de 3,5 km que se percorre em menos de uma hora. Nas Termas do Granjal, erguidas em 1882, a água mineral brota a 32°C e sulfurosa, procurada por quem busca alívio em tratamentos termais rodeados de jardins antigos e azulejos desbotados do pavilhão central.
A tarde cai sobre o Dão e o reflexo das torres barrocas ondula na superfície do rio. No chafariz do largo, alguém enche um cântaro enquanto o sino toca novamente. A pedra, a água e a vinha permanecem - elementos que aqui não se separam, mas se entrelaçam na geografia e na memória de quem passa.