Artigo completo sobre São Joaninho: vinhas do Dão entre xisto e altitude
Freguesia de Santa Comba Dão onde o vinho nasce a 322 metros, entre socalcos e memória rural
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A luz da manhã entra oblíqua pelas frestas das portadas de madeira. Lá fora, o sino da igreja — o de 1893, fundido na Oficina de São Gonçalo de Amarante — marca as horas com um toque grave que ressoa sobre os telhados de telha vermelha. São Joaninho acorda devagar, ao ritmo de quem conhece cada pedra da rua, cada curva do caminho que desce entre os campos cultivados. Aqui, a 322 metros de altitude, o ar tem uma nitidez que recorta os contornos das coisas — a cal das paredes, o verde escuro dos pinheiros na encosta, o cinzento do asfalto ainda húmido da noite.
Esta freguesia de Santa Comba Dão estende-se por 972 hectares, território suficiente para abrigar 1014 pessoas que mantêm viva uma paisagem de minifúndio e vinha. A densidade populacional — 104 habitantes por quilómetro quadrado — traduz-se numa ocupação dispersa: casas agrupadas no núcleo central, outras espalhadas pelos lugares, sempre com a horta ao lado e o fumeiro nos fundos.
A vinha que estrutura a paisagem
A pertença à região demarcada do Dão não é aqui mero detalhe administrativo. São 38 hectares de vinha registados na freguesia (INE, 2022), a maior parte em parcelas inferiores a meio hectare, herdadas por sucessão partilhada. As vinhas desenham socalcos nas encostas de xisto, seguindo curvas de nível que foram traçadas ao longo de gerações. No Outono, quando as folhas viram ao vermelho e ao dourado, a paisagem ganha uma paleta quente que contrasta com o verde persistente dos pinheiros. O vinho produzido nestes solos — de castas como Touriga Nacional, Tinta Roriz, Alfrocheiro — carrega a mineralidade da terra e a amplitude térmica das noites frescas desta altitude.
Os números do último censo revelam o perfil demográfico de muitas freguesias do interior: 88 jovens até aos 14 anos, 367 pessoas com mais de 65. São os mais velhos que guardam a memória dos gestos — a poda da vinha no Inverno, a vindima manual em Setembro, o pisar das uvas no lagar de granito do Casal dos Pintos, hoje desativado. Mas há também quem regresse: a família Mateus comprou em 2019 a quinta abandonada de Santo António, replantou 4 hectares e abriu o alojamento “Vale do Trigo”, com quatro quartos e salão de provas.
No trilho dos peregrinos
O Caminho de Torres — ramal interior do Caminho Português da Costa — atravessa a freguesia durante 5,2 km, trazendo caminhantes que percorrem a pé a distância entre Viseu e Santa Comba Dão. Passam pela EN2, param junto à fonte de São João (reconstruída em 1941 com louça da Fábrica de Sacavém), pedem indicações. Alguns pernoitam nas duas moradias de alojamento local registadas — “Casa do Caminho” e “Casa da Eira” — ambas com licença emitida em 2021. A passagem dos peregrinos deixa no ar uma energia transitória, de quem está de caminho para Santiago mas leva consigo a impressão deste vale.
A vida quotidiana desenrola-se sem sobressaltos. O Café Central, aberto em 1958 pela família Gomes, funciona como ponto de encontro — ali se comentam as notícias, se combinam os trabalhos da terra, se jogam o sueca ao fim da tarde. Não há multidões, não há filas, não há horas de ponta. O que existe é uma cadência previsível, pontuada pelos sinos da igreja matriz (restaurada após o incêndio de 1975) e pelo ciclo das estações.
Ao cair da tarde, quando o sol rasante ilumina as fachadas viradas a poente, São Joaninho revela a sua verdadeira textura: nem museu, nem postal. Apenas um lugar onde 1014 pessoas continuam a fazer da terra e da vinha o seu quotidiano, com a discrição de quem não precisa de palco. O fumo que sobe da chaminé da casa do Sr. António — ele que ainda queima a lenha da azinheira cortada no monte — o ladrar distante do Bobi, o cão da D. Alda, o cheiro a folha de vinha queimada no fundo do quintal: são estes os sinais de uma presença que resiste, teimosa e silenciosa, na encosta do Dão.