Artigo completo sobre Treixedo e Nagozela: vinhas, granito e rio Dão
Conheça a União das freguesias de Treixedo e Nagozela em Santa Comba Dão, Viseu: vinhedos do Dão, património barroco e tradição vinhateira nas margens do r
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O cheiro a mosto novo escapa das portas entreabertas quando Setembro chega a Treixedo. Nas encostas que descem até ao Dão, as vinhas disparam em socalcos irregulares, riscados pelo granito das paredes que separam um terreno do outro. O sol da tarde aquece as lagartixas que se fingem de mortas nas lagarteiras. No silêncio da vindima, ouve-se o estalo da tesoura e o tombo pesado das uvas nos cestos de verga.
Duas aldeias, um território
A união administrativa de Treixedo e Nagozela, formalizada em 2013, juntou duas comunidades que sempre partilharam o rio e a vinha, mas mantiveram ritmos distintos. Treixedo abriu-se à estrada nacional, beneficiando da fertilidade da várzea e da passagem dos peregrinos — o Caminho de Torres, ramal português interior de Santiago, atravessa ainda hoje os seus pomares e lagarteiras num percurso que os locais fazem em duas horas e meia. Nagozela, agarrada ao outeiro, fixou-se em torno da Capela de São Sebastião, templo setecentista onde ainda se realiza a bênção anual das fiéis, seguida de vinho tinto e broa de milho partilhados no adro.
A Igreja Matriz de Treixedo — classificada como Imóvel de Interesse Público — ergue-se no centro da povoação com a fachada barroca descascada. Lá dentro, o retábulo de talha dourada fica à espera de missas que já não chegam e painéis de azulejo contam episódios da vida de São Pedro que ninguém lê. Do adro, o olhar alcança o vale do Dão, onde as garças sobrevoam os meandros e os choupos marcam o leito do rio. Mais abaixo, a antiga fonte da estação ferroviária — que até 1988 abastecia os comboios a vapor da linha do Dão — continua a jorrar água fria sobre a pedra musgosa.
O que fica da terra
Nas adegas particulares de Nagozela, os produtores guardam pipas de carvalho francês onde o tinto encorpado da Região Demarcada do Dão amadurece durante meses. Em visitas marcadas através da Casa do Povo, é possível provar o vinho acompanhado de torradas de pão de centeio regadas com azeite, enquanto o dono explica o ciclo da vindima e mostra os tonéis transformados em tambores — herança do projecto «Dão em Percussão», que no Verão enche a praça de sons graves e ressonantes.
A gastronomia segue o calendário agrícola: chanfana de bode cozida em tacho de barro no Inverno, arroz de feijão-frade com cabeça de porco na Primavera, ensopado de enguias pescadas no Dão quando as águas sobem. O cabrito assado em forno de lenha acompanha-se de bolo de milhos com canela, e nas sobremesas destaca-se o doce de abóbora de Nagozela, confeccionado em caldeira de cobre até ganhar a consistência de compota espessa. Em Outubro, os magustos de castanha reúnem vizinhos em torno das fogueiras, com cântaros de água-pé oferecidos a quem passa.
Caminhar entre vinhas e pedra
O trilho que liga a Capela de São Sebastião à ponte românica da Ribeira de São João percorre quatro quilómetros de caminhos calcetados, ladeados por muros de xisto e espigueiros em granito. Um deles, em Nagozela, eleva-se sobre dezasseis pés de madeira — o mais alto do concelho de Santa Comba Dão —, com as tábuas escurecidas pelo tempo e pelo fumo dos fumeiros próximos. Junto ao poço de Nagozela, onde a água corre transparente sobre lajes lisas, as famílias estendem toalhas de linho tecidas ao «fio ao fio» e desembalam merenda de broa e queijo.
No fim de tarde, quando a luz rasante doura os socalcos e o vento traz o aroma a lenha queimada, as vindimas voluntárias terminam com migas de pão amassadas com uvas ainda mornas do sol. As mãos ficam manchadas de roxo, os cestos vazios amontoam-se junto ao lagar, e o som das conversas mistura-se com o murmúrio da ribeira que desce para o Dão. É nesse momento — pés descalços sobre a pedra fresca, dedos pegajosos de mosto — que a freguesia se revela por inteiro: não no postal, mas no gesto repetido há séculos.