Artigo completo sobre Trevões: pelourinho de 1514 e vinhas no xisto duriense
Freguesia vinhateira entre história manuelina e socalcos, com solar setecentista e tradição agrícola
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O granito do pelourinho ainda conserva os sulcos da inscrição de 1514, como se as letras resistissem ao vento que desce do planalto e varre a Praça de Trevões todas as manhãs de Inverno. A pedra está fria ao toque — um frio mineral, antigo, que contrasta com o calor seco que, no Verão, faz estalar os socalcos de xisto nas encostas viradas ao Douro. Nesta praça, no primeiro domingo de cada mês, a feira de artesanato reúne apenas quatro ou cinco expositores: Dona Albertina traz o pão de milho do forno da aldeia, o Sr. Joaquim vende azeite das suas 80 oliveiras centenárias. Mas agora, numa manhã de meio de semana, o som dominante é o de um galo algures atrás do Palacete Solar, a casa senhorial setecentista cujos brasões de armas olham a rua com a dignidade gasta de quem já viu passar bispos — e, dizem, na vizinha "casa do cabido", o bispo D. Frei António de S. José pernoitou em 1783 durante a sua visita pastoral.
O trivium que se tornou aldeia vinhateira
O nome vem do latim trivium, cruzamento de três vias, e a história confirma a vocação de encruzilhada. Trevões foi concelho até 1836, com foral outorgado por D. Manuel I em 1514, e aparece em documentos do Mosteiro de S. Cristóvão de Lafões desde 1120. Espinhosa, cuja toponímia remete para os espinheiros que ainda hoje bordejam os caminhos de terra batida, surge nos registos da Sé de Lamego a partir de 1226. Em 2013, a reforma administrativa fundiu as duas comunidades numa só freguesia, mas quem percorre os 3,2 quilómetros que as separam percebe que cada uma mantém o seu centro de gravidade — o cruzeiro manuelino no largo, a igreja como eixo, o ritmo próprio dos dias.
A economia destas terras sempre gravitou em torno da vinha, do olival e dos cereais. Desde 1756, a Companhia Geral da Agricultura das Vinhas do Alto Douro moldou a paisagem e as ambições. Foi aqui que Joaquim Augusto Ribeiro, engenheiro agrónomo nascido na casa nº 42 da Rua do Conselheiro em 1865, introduziu a primeira prensa hidráulica da região na Quinta do Pesqueiro em 1898. Mais recentemente, António Carvalho, nascido em 1948 na Casa dos Lóios, levou os vinhos da Quinta das Covas aos mercados da Inglaterra em 1987. A tradição não é museu — é matéria viva que fermenta.
Retábulos, talha e uma cabeça de cão na pedra
A Igreja Matriz de Trevões, classificada como Imóvel de Interesse Público desde 1977, remonta a 1535. Lá dentro, o retábulo maneirista de 1605, atribuído ao talhador Gaspar Coelho, ilustra a vida da Virgem em 16 painéis. Os azulejos setecentistas da capela-mor, fabricados em Lisboa, mostram a Anunciação com uma precisão que revela o gosto rocaille de 1743. Em Espinhosa, a Igreja Matriz, reconstruída após o terramoto de 1755, guarda um painel de azulejos de 1787 que narra o martírio de São João Baptista — padroeiro celebrado a 24 de Junho com missa às 11h, procissão pelas ruas de calçada, fogueira no largo e sardinhas assadas no ferro de 2 metros que o Clube de Caçadores guarda o ano todo.
Há ainda a Capela de São Sebastião, mandada construir por D. Luís de Távora em 1579, e, espalhados por ambas as aldeias, sete lagares com pilões de granito. O lagar comunitário de Espinhosa, com capacidade para 800 kg de azeitona, abre apenas no terceiro fim-de-semana de Novembro. A "cabeça de cão" na portela de Espinhosa, esculpida em 1892 por José Maria "o Pedreiro", serviu para amarrar os cães de guarda da Quinta do Pego durante a vindima — detalhe que Dona Amélia, 87 anos, aponta da sua janela: "Ali foi onde o meu avô atava o Riscas".
Socalcos, amendoeiras e o voo silencioso dos abutres
A freguesia inscreve-se no coração do Alto Douro Vinhateiro, classificado como Património Mundial pela UNESCO em 2001. As altitudes oscilam entre os 150 metros junto ao rio e os 700 metros na cumeada da Senhora da Graça. O Trilho dos Socalcos (PR3), um circular de 7,8 quilómetros que liga Trevões a Espinhosa, inclui um troço de 400 metros da via romana XVIII que ligava Lamego à Guarda — as lajes irregulares, com sulcos de rodas de dois milénios, sobem até à Portela do Judeu. Pelo caminho, 14 marcos de granito assinalam as variações de altitude. Em Fevereiro, a Rota da Amendodeira em Flor conta 823 amendoeiras entre a estrada municipal 514 e a ribeira de Trevões. O miradouro da Senhora da Graça, a 615 metros, oferece visibilidade até ao Marco de Canaveses em dias claros — 46 quilómetros em linha reta.
A mesa como extensão da vinha
A chanfana de bode serve-se no Restaurante O Solar às quartas e sextas, em tacho de barro negro de Nisa, cozida durante 4 horas em vinho tinto da Quinta do Pesqueiro. O queijo Terrincho DOP que aparece é de Trás-os-Montes, mas o mel que o acompanha vem das colmeias do Sr. Armindo, 45 colmeias nos socalcos acima de Espinhosa. O pão-de-ló de Trevões, com receita da Casa da Cerca desde 1923, leva 12 ovos para cada forma de ferro. Os vinhos são de aqui: o Quinta das Covas Reserva 2019, 93 pontos Robert Parker, e o Porto tawny 20 anos que o Sr. Joaquim serve na adega da sua garagem, onde ainda trabalham 3 toneis de 550 litros cada.
O que fica quando se parte
Quinhentos e quarenta e seis habitantes — 221 com mais de 65 anos, 48 com menos de 15 — cuidam de 3012 hectares onde a vinha ocupa 847 hectares, o olival 203 hectares. Em Janeiro, os grupos de máscaros percorrem as ruas a 6 de Janeiro, partindo da Casa do Conselheiro às 9h da manhã. Em Novembro, as provas de vinhos novos acontecem no dia 11, na sede da Associação de Produtores. A densidade é de 18 pessoas por quilómetro quadrado, e no silêncio denso de uma tarde de Outono em Trevões, o único som que persiste é o da água da ribeira a passar sob o arco único da ponte medieval — construída entre 1350 e 1375, com 14 metros de comprimento e 8 de altura, murmúrio constante que ninguém aqui precisa de ouvir para saber que está lá.