Artigo completo sobre Vale de Figueira: vinhas, xisto e memórias antigas
Aldeia duriense com estátua-menir, lagar romano e vinhedos nos socalcos do rio Távora
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O cheiro a lenha acesa mistura-se com o aroma dos figos maduros que pendem dos ramos junto aos muros de xisto. Em Vale de Figueira, o silêncio da tarde só é quebrado pelo tilintar distante de um sino e pelo murmúrio do vento que percorre os terraços de vinha. Aqui, a 140 metros de altitude, o vale abre-se sobre o rio Távora e a luz rasante do fim do dia desenha sombras compridas nos socalcos onde amadurecem as uvas que darão vinhos de altitude, frescos e nervosos.
Uma aldeia nascida entre figueiras
O nome diz tudo: eram as figueiras que marcavam a paisagem quando, no século XIII, este aglomerado já existia. Nos documentos setecentistas aparecia como "Vale de Figueira-a-Nova", nome que se fixou quando a paróquia foi formalmente criada em finais de 1764. A Igreja Matriz de Nossa Senhora da Apresentação, com as suas remodelações maneiristas, barrocas e rococós acumuladas até ao século XIX, ergue-se no centro da aldeia. No adro, um cruzeiro granítico datado de 1697 lembra a história de um emigrante que regressou do Brasil e mandou ergui-lo — ainda hoje, todos os anos, abençoam-se os campos junto a esta pedra lavrada.
Vestígios de mil anos
O território guarda memórias anteriores ao Portugal que conhecemos. No Alto da Escrita, uma estátua-menir — única no concelho — marca o que poderá ter sido um limite tribal da Idade do Bronze. No lugar do Negrio, um lagar romano ou medieval escavado na rocha testemunha séculos de produção vinícola. E há ainda a cabeça de guerreiro esculpida na Idade do Ferro, descoberta algures entre os campos de xisto. Um pequeno trilho interpretativo conduz até estes vestígios, permitindo tocar a pedra onde mãos antigas deixaram sinais.
A mesa que o vale oferece
O ensopado de borrego, cozinhado lentamente e servido com pão caseiro saído do forno de lenha, é o prato que melhor traduz a cozinha local. A serra oferece cogumelos silvestres que entram em guisados e omeletes, enquanto o Queijo Terrincho DOP, feito com leite de ovelha Churra da Terra Quente, confere ao queijo uma textura firme e um sabor intenso. Os vinhos, produzidos no terroir do Alto Douro Vinhateiro, beneficiam das amplitudes térmicas que aqui se fazem sentir: tintos encorpados e brancos frescos que pedem a mesa posta. Se aparecer por casa da Dona Alda, leve uma garrafa de tinto — ela serve-lhe um caldo de nabos que é um pecado mortal.
Fogueiras e pão partilhado
Em junho, a Festa de São João reúne antigos emigrantes e vizinhos das freguesias limítrofes. Há missa, procissão, fogueiras que ardem pela noite dentro, música popular e danças tradicionais. Distribuem-se manjericos e balões de São João, numa romaria que mantém viva uma tradição secular. No verão, a "Festa do Pão" traz de volta os fornos comunitários, onde se exibe e degusta o pão alentejano feito à maneira antiga — é nisto que a malta da vila se lembra que tem origens algarvias, como se o pão trouxesse as memórias no miolo.
Com apenas 356 habitantes espalhados por 1 646 hectares, Vale de Figueira desenha-se como uma das freguesias de menor densidade do país. Ao cair da noite, quando o fumo dos fornos sobe devagar entre as figueiras centenárias e a última luz se apaga nos terraços de vinha, resta o eco do sino no ar frio — um som que se propaga pelo vale como se procurasse resposta na pedra antena.