Artigo completo sobre Vilarouco e Pereiros: Vinhas de Xisto no Cima Corgo
A União das freguesias de Vilarouco e Pereiros, em São João da Pesqueira, preserva tradições vinhateiras no coração do Alto Douro Vinhateiro, entre xisto e
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O xisto queima os pés mesmo depois de o sol se deitar. Nos socalcos, a terra solta-se em lascas negras que se agarram à sola das sapatilhas — é isto que os americanos pagam para fotografar e nós apressamos o passo para evitar. Entre Vilarouco e Pereiros, onde a estr municipal 522 faz a curva perigosa junto ao cruzamento da Gralheira, o cheiro a mofo das oliveiras podadas mistura-se com o fermento dos bagaços que escorrem das adegas.
Duas aldeias, uma geografia
A junta fica em Vilarouco mas o presidente é de Pereiros — isto importa quando se discute onde se põe o contentor do lixo. A igreja de Vilarouco tem campas de 1734 com nomes que ainda hoje se repetem nas listas telefónicas: Moura, Valente, Pinto. Em Pereiros, a torre da igreja perdeu a chapa de zinco no temporal de 2018 e ainda ninguém arranjou coragem de subir lá acima.
A 600 metros de altitude, o ar corta a garganta em Janeiro quando se desce às 7h para apanhar o autocarro escolar. O miúdo do café da Gralheira serve galões em canecas de plástico aos camionistas que transportam pipas de 600 litros para as caves de Vila Nova de Gaia — nenhum deles sabe que estão a atravessar Património Mundial.
Sabores da terra quente
O queijo que se come aqui vem em tábuas de madeira que a Maria da Padaria tem desde 1978. Não é Terrincho — isso vem de Trás-os-Montes. O nosso é de cabra, mais salgado, com a crosta presa a bocados de esteva que caem do teto do estábulo. O pão é de mistura porque o forno comunitário de Pereiros caiu em 2003 e agora vai-se ao café de Vilarouco buscar os caracóis quentes às 7h.
No dia de São João, o Celestino mata o cabrito na eira de trás da casa. A mulher queixa-se que a gordura entope a pia, mas ele insiste que é para manter a tradição. A chanfana coze-se em tacho de ferro que foi da avó — a receita tem vinho branco porque o tinto fica demasiado caro para molhar 3 quilos de borrego.
Percursos entre vinhas
O trilho marca 5,2 km mas quem o fez sabe que são 7 se se parar na quinta do Sequeira para provar o branco de 2022 que ainda está turvo. Os socalcos do Penedo estão abandonados desde que o António foi para França em 2015 — agora crescem estevas que chegam à cintura e os códigos de vinha desapareceram sob o carquejo.
No caminho de terra batida que liga as duas aldeias, o silêncio é tão grande que se ouve o zumbido das abelhas nos sobreiros. São 357 almas mas às 15h de Agosto parecem 30. A única vida é no bar do Zé Mário onde se joga ao totobola e se bebem minis a 80 cêntimos — pagas depois, quando vier o subsídio.
Às 19h, quando as sombras cobrem a encosta do Castelo, o xisto deixa de queimar e começa a libertar o perfume a terra molhada que os que cá nasceram reconhecem como cheiro a casa.