Artigo completo sobre Carvalhais e Candal: castros, xisto e memória romana
Entre a Serra da Arada e vales de carvalhos, duas aldeias preservam vestígios de 2500 anos
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O granito aquece sob o sol da manhã quando o sino da igreja de Carvalhais toca sete vezes. Nas encostas da Serra da Arada, o vento traz cheiro a terra húmida e a fumo de lenha — há quem ainda acenda o forno para cozer a broa escura. Os muros de xisto dividem lameiros onde pastam cavalos de Garrano, e a ribeira corre por entre carvalhos centenários que deram nome ao lugar. A setecentos metros de altitude, esta união de freguesias estende-se por quarenta e três quilómetros quadrados de vales e encostas, vinte e oito aldeias dispersas onde vivem mil e quatrocentas pessoas. O passado acumula-se em camadas: o castro da Cárcoda, documentos anteriores à fundação de Portugal, necrópoles romanas em Germinade.
Pedra que guarda memória
No alto da Cárcoda, vinte e sete casas escavadas emergem do solo. O povoado castrejo, classificado Imóvel de Interesse Público, remonta aos séculos VI a.C. a III d.C. — muralhas duplas, fossos, um espólio que inclui ferramentas de bronze e ferro, moedas românicas, uma viria de ouro. Diz a lenda que no cimo existe a "Mina do Bode", guardada por um dragão cabriforme que só cede a quem conhece as rezas do livro de São Ciprião. A realidade histórica dispensa mitologia: em 1104, a igreja de Carvalhais foi doada ao mosteiro de São Pedro do Sul, e São Tiago tornou-se padroeiro. A igreja matriz actual, dos séculos XIII e XVIII, conserva retábulos barrocos e um campanário sineiro que marca o ritmo da aldeia.
Candal ergue-se mais adiante, topónimo que vem de "lugar pedregoso e declivoso" — e a descrição não mente. As ruas sobem em calçada irregular, ladeadas de casas de xisto onde o reboco branco descasca ao sol. A igreja de traçado popular serrano contrasta com a casa solarenga de Mourel, cujo portal setecentista ainda exibe brasões desgastados pelo tempo. Em 1952, descobriu-se aqui um túmulo romano com inscrição funerária, hoje no Museu de Belém — um fragmento de império perdido entre montes e ribeiras.
Comer a paisagem
A Carne Arouquesa DOP chega à mesa grelhada, a vitela de gado autóctone que pasta nos lameiros da Arada. O Cabrito da Gralheira IGP assa em forno de lenha com ervas aromáticas — alecrim, louro —, a pele estala dourada. Nas feiras de outubro, os enchidos alinham-se nas bancas: salpicão, paio, chouriço de vinho que mancha os dedos de vermelho. A broa de milho escura acompanha a chanfana, e ao fim da refeição há queijadas de requeijão, bolo de fubá, suspiros que se desfazem na língua. Os vinhos do Dão — tintos robustos, brancos frutados — vêm das encostas que rodeiam a freguesia. À noite, há quem beba aguardente de medronho em copos pequenos, o líquido transparente a arder na garganta.
Água, pedra e carvalho
A Serra da Arada domina o horizonte. O Oiteiro dos Carvalhos, a mil metros, é o ponto mais alto do concelho — dali vêem-se vales verdejantes, pinhais, sobreiros, os rios Sul e Teixeira que serpenteiam até ao fundo. O trilho PR1, Rota da Cárcoda, sobe por caminhos de xisto entre muros antigos. Em Candal, a Cascata da Cabrela despeja água cristalina num poço rodeado de fetos. Não há praias marítimas, mas há zonas de lazer fluvial onde as crianças mergulham no Verão, e áreas de merenda à sombra de carvalhos. A paisagem organiza-se em socalcos, geometria ancestral que resiste ao abandono.
Festa e fogo
A romaria de São Tiago, em Julho, traz missa campal, procissão e música de bombos e acordeões. Em Candal, a 15 de Agosto, celebra-se Nossa Senhora da Assunção com tasquinhas e danças tradicionais. O rancho folclórico preserva trajes de Lafões — saias escuras, xailes bordados, chapéus de abas largas. No Natal, a "Floresta Encantada" de Carvalhais monta um presépio vivo entre pinheiros iluminados. São festas que duram a noite inteira, o cheiro a sardinha assada misturado com fumo de fogueira, vozes que sobem pela encosta até se perderem no escuro da serra.
O som dos sinos de Carvalhais ecoa no vale quando a tarde esfria. Há luz dourada nas vidraças da igreja, e o fumo sobe direito das chaminés. Nos lameiros, os cavalos levantam a cabeça ao ouvir passos na calçada. A serra fecha-se em sombra violeta, e fica o cheiro a carvalho molhado, a lenha, a terra que não esquece.