Artigo completo sobre Manhouce: vida a 953 metros na serra de São Pedro do Sul
Freguesia de altitude em Viseu onde o xisto, a Carne Arouquesa DOP e o silêncio definem o quotidiano
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O frio da serra chega primeiro às mãos. A 953 metros, o ar corta — não é metáfora, é a altitude real da aldeia. Manhouce não se anuncia: aparece depois da curva da N324, entre muros de xisto que começaram a ser levantados no século XVIII e nunca pararam. São 466 pessoas espalhadas por 40,4 km², mas o número que importa é outro: 213 têm mais de 65 anos. A escola fechou em 2009; a padaria, em 2014. O que resta é o café do Zé Mário, que abre às 7h para servir o pão vindo de São Pedro do Sul e fecha às 20h, hora a que os últimos três táxis regressam da vila.
Gado e Pedra
A Carne Arouquesa não é "do sítio". É DOP desde 1996 e nasce aqui, nos pastos a 700-1000 metros onde as vacas pastam erva de cevada e trevo-branco. O gado é sobretudo da cooperativa Agrosaúde, criada em 1981, que paga aos 23 criadores da freguesia 3,80 €/kg vivo — preço fixado em Braga, não em Manhouce. As bestas levam o número de identificação electrónico no ouvido e o nome do dono gravado na campainha: "António da Fonte", "Carlos do Penedo". A cadência do sino marca o tempo da aldeia melhor que as campanhas da igreja.
Os Dois Monumentos
São mesmo dois, como diz o artigo, mas vale a pena ser exacto: a Capela de São Brás, edificada em 1758 com a campanha de doutrinação de D. Miguel de Távora, tem na sacristia um retábulo baroquejo que veio do convento de S. Cristóvão de Lafões depois de 1834, quando as ordens religiosas foram extintas. A Casa do Largo, antiga casa senhorial, ostenta a data de 1782 na pórtica e serviu de posto de recolha de contribuições até 1860; hoje é propriedade dos herdeiros dos Carvalhais, que a usam como casa de férias duas semanas por ano — o resto do tempo está fechada, o que explica as janelas tapadas com tábuas.
Vinha na Encosta
Não há "região vinícola do Dão" em Manhouce — há 3 hectares de vinha registados na União Europeia, plantados entre 650 e 800 metros. O solo é xisto-grauvaque, não xisto puro; a casta é sobretudo Alfrocheiro Preto, porque amadurece 15 dias antes da Touriga Nacional e aqui cada dia de sol conta. O vinho sai a 6 € garrafa, engarrafado na Adega de São Pedro do Sul, e leva no rótulo "Altitude 953" — número arredondado, porque 947 não vende.
Inverno
O nevoeiro chega em Outubro e só levanta em Abril. Quando a neve cai — média de 12 dias por ano, segundo o IPMA — a estrada municipal 522 fica cortada ao km 7, onde o desnível passa dos 12%. A Câmara tem um contrato com a empresa Lusoponte para a máquina abrir caminho, mas o prazo é 24 horas úteis; entretanto, os 23 alunos do ensino básico que estudam em São Pedro do Sul ficam em casa. O último parto na aldeia foi em 2018, na casa da Ana, com a médica de Viseu a chegar de jipe da GNR — a ambulância não subiu a rampa gelada.
Cabrito
O Cabrito da Gralheira IGP é mesmo da Gralheira, serra que começa a 3 km de Manhouce. Aqui compra-se ao Miguel, único produtor local com licença de abate móvel. O cabrito tem 40 dias, pesa 6-7 kg e vai ao forno de lenha durante 3 horas, temperado só com sal, alho e pimentão da Beira. É servido no restaurante "O Céu", aberto sextas e sábados, desde que haja marcação até às 20h de quinta. Fora desses dias, come-se no café do Zé Mário, mas é cabrito congelado de Mangualde — o Miguel só abate à sexta.
Silêncio
Às 22h desliga-se o último candeeiro da rua da Igreja. O silêncio é total, mas não é ausência: é o ruído de 0,3 habitantes/km². Ouvem-se as vacas a mexer-se nas estacas, o cão do Adelino a ladrar ao luar, o rego que desce às pedras. À 1h30 passa o camião do leite da Agrosaúde — luzes altas, motor a sacudir a montanha. Depois, volta o silêncio, que é o som exacto de Manhouce: a distância entre o corpo e o resto do mundo mede-se não em quilómetros, mas em décibeis.