Artigo completo sobre Pinho: onde o forno acende antes do sol nascer
Freguesia de São Pedro do Sul onde 654 habitantes mantêm viva a economia rural e os gestos ancestrai
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O som chega primeiro: o estalar da lenha no forno, grave e ritmado, como quem marca passo antes do desfile. Em Pinho, a 497 metros de altitude, o dia começa pela preparação do fogo — gesto que não mudou desde que meu avô me ensinou a fazer o borralho com jornal e cascas de pinho. O granito das casas de lavoura vai aquecendo devagar, como quem não tem pressa nenhuma, enquanto os espigueiros fazem geometria no chão — são os nossos arranha-céus, só que guardam milho em vez de gente.
A geografia da contenção
Dizem que o nome vem dos pinhais, mas eu cá acho que vem do tamanho. Pinho é pequeno como um alfinete no mapa, espetado entre a serra e a planície. Os soutos são nossos — quando a castanha está na época, nem o vento leva as melhores. As ribeiras descem para o Vouga como crianças para a escola, aos trancos e barrancos. Não há trilhos marcados com pinturas, mas basta seguir o cheiro a fumo ou o som do trator do Zé Manel que se chega a qualquer lado.
Aqui há espaço para tudo, menos para confusões. Dos 654 que constam no papel, metade já foi meu colega de escola ou parente. Os outros são estrangeiros de Figueiredo — que para nós é quase o estrangeiro. As três casas de férias que apareceram não enganam ninguém: têm plantas na varanda que ninguém rega.
São Pedro e as capelas do caminho
A igreja é como a avó Dores: não precisa de grandes pinturas para se fazer respeitar. Em Junho, a festa é o nosso Cannes — mas em vez de alfombra vermelha, há manta de retalhos na praça. O cabrito vai de mesa em mesa como boato de festa, e o vinho do Dão corre mais depressa que a água da ribeira. Às tantas da noite, o acordeão do Sequeira ainda se ouve do outro lado da aldeia, mas ninguém se queixa: é sinal que há vida.
As capelas são os nossos marcos de GPS. "Antes da curva da ermida" é onde mora o António. "Depois do cruzeiro" é o caminho para a corte do gado. A de Santo António está trancada nove meses por ano, mas no dia dos Santos abre-se como flor de um dia — e nesse dia até o cão do Almada entra de cabeça descoberta.
Carne, vinho e o forno de lenha
O segredo do cabrito não é o tempero — é o tempo. E o forno do Sr. Albano, que tem mais anos que a Junta de Freguesia. A chanfana leva vinho tinto do Dão e vai na panela de barro que a mãe da D. Idalina herdou da sogra — é como a Constituição, não se mexe. A Carne Arouquesa é dos bois que se vão passear pelos montes — são eles que escolhem o prato, não nós.
Quando se come em Pinho, não se fala de dietas. Fala-se do tempo, do gado, da política — mas sempre com a boca cheia. O pão de ló da Dona Lucinda é tão húmido que até parece que chorou de alegria no forno.
Outono: a colheita da castanha
Outubro é quando a aldeia fica mais parecida com ela própria. Os soutos enchem-se de gente que reaparece como andorinhas — filhos que vieram do Porto, netos que só conhecem a aldeia pelo Wi-Fi da avó. Varrem-se folhas como quem limpa a casa para visitas. À noite, o borralho fica a arder e as castanhas estalam como foguetes de fim de ano.
Quem passa por aqui na época leva mais do que castanhas no bolso. Leva o barulho seco das folhas, o cheiro a terra molhada, e aquela sensação de que o tempo aqui não passa — apenas se assenta na lareira, como o gato do Celestino.