Artigo completo sobre São Pedro do Sul: vapor sulfuroso a 67°C há 2000 anos
Termas romanas em uso contínuo, balneário de D. Afonso Henriques e 16 mil aquistas por ano
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O vapor sobe do chão antes de o dia nascer. Não é nevoeiro — é enxofre, é água sulfurosa que brota a 67 °C das entranhas do vale do Vouga e se mistura com o ar frio da madrugada, criando uma cortina branca que paira sobre as fachadas de pedra. O cheiro é inconfundível: mineral, denso, ligeiramente metálico, e impregna a roupa, a pele, as narinas de quem caminha pelas ruas de São Pedro do Sul antes das oito da manhã. Há quase dois mil anos que este vapor marca o ritmo do lugar. Desde o século I, quando os romanos canalizaram estas águas para um balneário que nunca deixou de funcionar — um uso ininterrupto que atravessa impérios, reinos, repúblicas, pandemias e reformas administrativas.
O balneário que curou um rei e não fechou desde Roma
A história é conhecida mas vale a pena recitá-la aqui, onde aconteceu: em 1169, D. Afonso Henriques, com uma fractura na perna que lhe tolhia o corpo, mandou edificar o balneário que ainda hoje leva o seu nome. O Balneário D. Afonso Henriques, erguido sobre alicerces do século XII, é vizinho das piscinas romanas originais, agora expostas no único museu termal do país — instalado nas antigas casas de banho da Rainha D. Amélia, construídas em 1894. Três camadas de tempo sobrepostas num raio de cem metros: pedra romana polida pela água, cantaria medieval, azulejaria de finais de oitocentos. Cerca de dezasseis mil aquistas por ano passam por aqui, fazendo destas as termas mais concorridas de Portugal. A densidade populacional da freguesia — 243 habitantes por quilómetro quadrado, das mais altas do interior norte — deve-se em grande parte a esta procura constante de tratamentos, serviços de saúde e hotelaria que sustenta uma economia improvável para uma vila do distrito de Viseu.
Três nomes, um vale
A União das Freguesias de São Pedro do Sul, Várzea e Baiões, criada na reorganização de 2012/2013, junta três identidades que o vale do Vouga já unia geograficamente. São Pedro do Sul deve o nome à dedicação paroquial e à posição a sul do concelho. Várzea vem do latim várzia, que designava os terrenos férteis junto ao rio — e basta olhar para a planura verde que se estende entre a margem e as primeiras encostas para perceber a exactidão do topónimo. Baiões recorda um proprietário medieval, um tal Baião, cujo nome ficou colado à terra muito depois de o homem ter desaparecido. Hoje, os 5497 habitantes distribuem-se por um território de 2255 hectares a cerca de 299 metros de altitude média, onde o xisto escuro das arribas contrasta com o verde intenso do pinhal e do carvalhal que cobre as encostas.
Carne, fumeiro e um pão-de-ló que não se parte
A mesa aqui organiza-se em torno de duas proteínas com nome próprio: a Carne Arouquesa DOP, grelhada ou estufada com uma lentidão que honra a raça, e o Cabrito da Gralheira IGP, cuja carne magra e firme ganha intensidade no forno a lenha. Os rojões à moda de Lafões chegam à mesa com gordura a estalar e um travo de vinho que lhes amolece a fibra. Nos fumeiros de xisto — estruturas baixas, escuras, onde a fumaça de carvalho circula durante semanas — curam-se chouriças e salpicões que depois aparecem cortados em rodelas grossas sobre tábuas de madeira no mercado semanal das quartas-feiras. Os doces têm a sua própria geografia: o pão-de-ló de Margaride, húmido no centro; as queijadas de Várzea; os doces de ovos de tradição conventual. E o vinho é do Dão — tintos de Touriga Nacional e Encruzado que respiram bem com a gordura dos assados. Para fechar, há quem beba um copo de água mineral sulfurosa como digestivo, numa tradição que só faz sentido onde a terra ferve.
A levada, a ponte e o rio que tece tudo
A Ecopista do Vouga, que permite percursos cicláveis e pedestres entre Várzea e o rio em direcção a Sever do Vouga, é o modo mais lento e mais justo de conhecer o vale. O caminho segue junto à água, entre canas e amieiros, com o som constante da corrente a servir de metrónomo. A levada da Margem do Rio conduz até à Ponte do Pego, estrutura de pedra que cruza o Vouga com a simplicidade de quem foi construída para durar e não para impressionar. Nas encostas viradas a sul, vinhas em socalcos sobem o terreno em degraus estreitos, desenhando linhas que o Outono pinta de ocre e bordô. A Serra da Arada e o Monte de S. Macário ficam a poucos quilómetros, com trilhos de granito e cascatas que justificam o desvio, mas a verdade é que o vale, por si só, ocupa dias.
Romarias de capela, não de cartaz
O calendário festivo aqui mede-se em capelas, não em palcos. A festa de Nossa Senhora da Saúde nas Termas, quarenta dias após a Páscoa, mistura devoção e cura — dois conceitos que nestas águas sempre andaram juntos. São Martinho, a 11 de Novembro, traz castanhas assadas e o primeiro vinho novo. Em Drizes, Nossa Senhora da Nazaré celebra-se a 8 de Setembro e Santo Amaro a 15 de Janeiro, com procissões curtas entre casas de granito. Em Várzea, Nossa Senhora da Expectação ocupa o domingo anterior ao Natal, e o Corpo de Deus mantém-se como procissão tradicional. São festas de bairro, centradas nas capelas — a Igreja Matriz de Várzea, maneirista, a Igreja das Termas, a Capela de São Martinho — onde o sino ainda marca a hora e a comunidade se reconhece.
Se vier na época da vindima, valerá o desvio até à Adega Cooperativa: é ali que o vinho do Dão é feito com uvas que crescem a menos de 5 km, e o pessoal não se faz de rogado a servir um copo ao visitante que cheira a mosto.
Ao fim da tarde, quando os últimos aquistas saem do balneário com a pele quente e o passo mole, o vapor volta a adensar-se sobre o vale do Vouga. O cheiro a enxofre mistura-se agora com o de lenha queimada nos fumeiros e, algures numa cozinha próxima, com o de cabrito a assar. É esse cruzamento exacto — mineral, fumo, gordura — que fica nas narinas muito depois de se deixar São Pedro do Sul. Não há perfume que o replique.