Artigo completo sobre Sul: onde o granito guarda memórias de Roma
Freguesia de pastagens e caminhos antigos entre São Pedro do Sul e os montes de Viseu
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O granito queima os dedos ao fim da tarde — guardou o sol todo o dia e agora devolve-o devagar, como quem não quer perder o calor de ninguém. Do outro lado do cabeço, uma vaca arouquesa solta um mugido rouco que se agarra às pedras e desce o vale abaixo, até encontrar o sino da Aldeia Velha que responde com dois tilintares secos. A luz, essa, não se explica: é um dourado espesso que enche o ar e faz as árvores parecerem de papel recortado, tão nítidas que quase doem aos olhos.
Caminhos que vêm de Roma
Há pedras no chão que são mais antigas que a própria ideia de Portugal. Discretas, encostadas ao banco das Valadas ou perdidas no meio do carreiro da Póvoa, ainda guardam o sulco de rodas romanas que aqui passaram há dois mil anos. Ninguém lhes põe placa — nem falta que faz. Quem nasceu aqui aprendeu a pisá-las sem ver, como quem salta o degrau conhecido de casa.
Sul chama-se porque é mesmo sul. Não há mistério, nem santo, nem promessa. É o que é: o lugar que fica abaixo de São Pedro do Sul, do outro lado da serra, onde o terreno começa a descer para o Vouga. Quem perguntar por "Sul" no café do Vidal, em Manhouce, sabe que lhe apontam o dedo para a estrada municipal 506 e dizem: "lá em baixo, onde o vento não gira".
Não há romarias, é verdade. Mas há dias de outubro em que o cheiro a borrego assado percorre a aldeia inteira, de porta em porta, porque alguém matou o cabrito no quintal e toda a gente leva o prato. A festa é essa: a vizinha que bate à porta com a travessa ainda fumegante, o vinho tinto servido na garrafa de plástico reutilizada, a mesa posta no alpendre porque dentro a lareira já não dá conta do calor.
Carne certificada e vinhas do Dão
O certificado na orelha do bicho não diz metade. Diz que é Arouquesa DOP, mas não diz que o António da Adega sabe ao detalhe onde cada vaca pastou ontem, que lhes chama pelos nomes — "a Malhada, a Preta, a Burra" — e que a que vai para matança é sempre a que ele não gosta de ver partir. O sabor vem da erva rasteira que só nasce nos baldios de inverno, da água da mina que bebem gelada, do tempo que se deixa passar.
O cabrito vai ao forno de lenha depois de passar a noite no sal grosso. A pele estala entre os dentes, a carne desfaz-se em fibras que sabem a leite e a montanha. Quem come fora dali nunca percebe bem por que é tão diferente — é o mesmo animal, pensam eles. Mas não é. É este pasto, esta chuva, este vento que traz o sal do Atlântico até às encostas da Gralheira.
O vinho é outra história. Nas vinhas da Quinta do Cerrado, o granito obriga as raízes a ir buscar água a dez metros de profundidade. O resultado é um tinto que arrebenta a boca, seco como o xisto, com um fim de boca que deixa os dentes a ranger. O Rui serve-o à temperatura da cave — frio de inverno, quente de verão — e avisa: "beba devagar, que este vinho manda em quem não respeita".
Pastos, matos e horizontes próximos
A Gralheira está sempre lá, quer queira quer não. Às vezes é um corte negro contra o céu, outras vezes desaparece nas nuvens baixas que se agarram aos cimos. Mas é ela que diz onde se está: se a ves por cima do ombro esquerdo, é que ainda falta subir; se já a tens à frente, é que chegaste.
Os caminhos não estão no Google. São estreitos, de terra batida, onde o trator só passa se o António do Canto os tiver gradado na semana passada. Há um que sobe da Póvoa até à Casa do Guarda, onde a urze cheja a mel e as giestas picam quem se aproxima. Em abril, as bétulas rebentam em verde tão claro que doem os olhos. Em agosto, tudo é dourado e seco, e o chão range sob os pés como pão torrado.
As casas para ficar são casas de verdade. A da Dona Amélia tem os lençóis cheirados a sabão caseiro e a janela que dá para o curral — às seis da manhã ouvem-se os cabritos a pedir o leite. A do Zé Manel tem a lareira que nunca se apaga de Outubro a Maio, e o gato que se deita em cima dos pés quem anda na cama. Não há televisão, mas há a estante com os livros do filho que foi para Lisboa e nunca mais voltou.
Quando a noite cai, cai de rajada. Primeiro desaparecem os vales, depois os montes mais baixos, e por fim fica só a silhueta da Gralheira a cortar o céu ainda claro. O frio sobe do chão, entra pelos tornozelos, faz contrair os ombros. Algures, um cão ladra — duas vezes, nunca mais. O silêncio que vem a seguir é tão completo que se ouve o sangue a bombar nos ouvidos. E depois, lá em baixo, uma porta range, uma voz chama pelo Francisco, e tudo volta a ser humano.