Artigo completo sobre Rio de Moinhos: Vinhas e Granito no Coração do Dão
Freguesia de altitude em Sátão onde a pedra, a água e a vinha moldam a paisagem e o quotidiano
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O granito ainda está húmido ao pequeno-almoço, mesmo quando o sol já espreitou a serra. Rio de Moinhos fica a escassos 500 m de altitude — o suficiente para o ar se limpar, mas sem o ardor da Beira que se faz mais abaixo. São 1103 hectares onde a pedra manda: nas casas, nos muros, nas eiras de bater o milho. Entre os lugarejos — Outeiro, Cortiçô, Cumeada — o silêncio é denso, mas nunca mudo: leva sempre uma colher de chá de água correndo e o vento que sobe o Dão.
Geografia de pedra e vinha
Estamos dentro da Região Demográfica do Dão, por isso a vinha chega à porta de casa como quem pede um copo de água. O xisto e o granito dividem as costelas da encosta; a altitude atenua o Verão e dá aos tintos uma acidez que os enólogos da cidade pagam a peso de ouro. Caminhar entre os socalcos é brincar ao vai-vem térmico: um passo na sompa da videira, outro na pedra queimada, e o suco dos bagos muda de ideias conforme o lado.
789 habitantes, diz o papel. Desses, 351 já vão perdendo a conta aos anos e só 51 ainda vão ao colégio de Sátão de mochila às costas. Isto faz-se notar: as aldeias respiram devagar, as portas fecham-se ao cair da noite, mas ainda há alguém que sabe podar uma videira de olhos fechados e outro que sabe em que dia há que semear a fava sem consultar o calendário.
O único testemunho classificado
Há um monumento com chapa do Estado, classificado como Imóvel de Interesse Público, mas ninguém no café te saberá dizer o nome completo. Apontam para a igreja velha, ou talvez para o cruzeiro da estrada de Sátão. Serve: diz que por aqui já morou gente que importava. O resto lê-se na pedra: na laje da eira, na ponte sem guardanapos, na forma como as casas viram a sul para fugir ao vento do norte.
Quotidiano a quinhentos metros
Não há filas, nem selfies, nem lojas de recordações. O “crowd” é 15 em 100 — ou seja, três gatos pingados e um cão que nem ladra para não gastar voz. Existe uma única moradia para alojar quem se esqueceu de ir embora a tempo. O turismo ainda não inventou hashtag para Rio de Moinhos; o que há é um trilho que se perde no matagal, uma levada onde a água conversa consigo mesma e um silêncio que dá para desligar o telemóvel sem arrependimento.
Comer? Há o que a terra dá: chouriço de carne fumado na chaminé, pão de milho que parte os dentes se não for com manteiga, queijo de cabra que fica bem com um branco do Dão servido à temperatura da cave — porque arca frigorífica é para os riquinhos. Nada disto aparece no TripAdvisor; aparece na mesa de quem bate à porta da Dona Alda.
O som da água que já não mói
Moinhos há-de haver, mas hoje são apenas buracos no rio com parede de pedra e rodagem partida. Ainda assim, a ribeira não desistiu: continua a correr entre canais de rega, a irrigar hortas de fim-de-semana e a dar de beber aos cães que vagueiam. Ao entardecer, quando o sol se deita na espinha da serra e o ar esfria depressa, a água é o único ruído que não precisa de bateria. Fica-te no ouvido como quem diz: “Eu estava aqui antes de vocês e vou continuar depois que partirem.”