Artigo completo sobre Romãs, Decermilo e Vila Longa: vinhas e granito no Dão
Três aldeias do concelho de Sátão unidas pela altitude, vinhedos e silêncio das encostas serranas
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O granito das casas devolve o calor acumulado durante o dia enquanto o sol desce atrás das encostas da serra. Nas ruas estreitas que sobem e descem entre Romãs, Decermilo e Vila Longa, o silêncio tem peso — é o silêncio denso dos lugares onde vivem mil pessoas distribuídas por quarenta e sete quilómetros quadrados de vales e cumeadas. A seiscentos e quarenta metros de altitude, o ar chega mais fino, e a luz da tarde ganha uma tonalidade dourada que se alonga pelas videiras do Dão.
Três aldeias, uma geografia
Esta união de freguesias nasceu em 2013 por decreto administrativo, juntando três núcleos rurais que partilham o mesmo ritmo sazonal mas guardam identidades próprias. A reforma foi revertida em 2025, devolvendo a cada uma o seu executivo. Mas a geografia não obedece a decisões políticas: os caminhos que ligam as três localidades continuam a desenhar-se pelos mesmos vales, as vinhas estendem-se nas mesmas encostas voltadas a sul, e o granito das construções vem das mesmas pedreiras que alimentaram gerações de canteiros.
A toponímia revela camadas de tempo. Romãs, documentada desde 1258 na "Inquirição de Afonso III", devia o nome aos pomares de romãzeiras que aqui abundavam. Decermilo aparece em 1290 como "Decimilio", referência à divisão decimal das terras na organização administrativa medieval. Vila Longa, com foral atribuído por D. Dinis em 1295, estendia-se ao longo da estrada real que ligava Viseu ao litoral. Escavações arqueológicas na região de Viseu trouxeram à superfície necrópoles e estruturas religiosas anteriores ao século XII, vestígios de ocupação romana e visigótica que confirmam a antiguidade do povoamento. Aqui, a história não se expõe em painéis interpretativos: está nas fundações das capelas, nos muros de socalcos que seguram a terra, no traçado irregular das ruas que seguem a lógica do terreno, não do esquadro.
Vinha e granito
A Região Demarcada do Dão define esta paisagem tanto quanto a altitude. As vinhas organizam-se em socalcos, aproveitando cada metro quadrado de solo fértil entre o xisto e o granito. Durante a vindima, o cheiro a mosto impregna o ar, mistura-se com o aroma da terra revirada e da lenha que arde nos fumeiros. É uma economia discreta, de pequenos produtores como a Quinta do Cerrado ou a Casa de Mouraz que engarrafam em adegas familiares ou vendem à Cooperativa Agrícola de Santa Comba Dão, a quinze quilómetros.
Com 1062 habitantes registados nos Censos de 2021 e uma densidade de pouco mais de vinte e duas pessoas por quilómetro quadrado, o território respira largo. Quatrocentas e trinta e nove pessoas têm mais de sessenta e cinco anos; noventa e cinco não chegaram aos quinze. Os números desenham uma demografia em desequilíbrio, comum a tantas freguesias do interior, mas também uma continuidade: há quem nasça aqui, quem regresse, quem mantenha a casa aberta mesmo vivendo longe.
O que fica
Um único monumento classificado consta dos registos oficiais — a Capela de São Sebastião em Vila Longa, classificada como Imóvel de Interesse Público em 1982 — mas a paisagem construída não se resume a inventários patrimoniais. As alminhas nos cruzamentos de caminhos, como a de Nossa Senhora da Saúde na bifurcação para Decermilo, os pátios lajeados onde ainda se malha o centeio em agosto nos casais de Romãs, os poços comunitários de boca estreita: são estes os marcos que organizam a memória coletiva.
Três alojamentos recebem quem procura o interior sem artifícios turísticos — a Casa da Tapada em Vila Longa, o Casal da Serra em Romãs e a Quinta da Comenda em Decermilo. Moradias que alugam quartos, onde o pequeno-almoço chega com pão caseiro da padaria Silvério em Sátão e compota de marmelo da Cooperativa de Candemil. Não há multidões, não há filas, não há época alta. O risco de se perder é baixo; a dificuldade logística, moderada — a A25 fica a vinte minutos; a experiência, proporcional ao que se procura: tempo para caminhar sem destino marcado, conversas longas à porta da mercearia O Cantinho em Romãs, o frio húmido das manhãs de nevoeiro que sobe do ribeiro de Moura.
Ao entardecer, quando as sombras se alongam e o sino da igreja matriz de Vila Longa marca as seis horas, o eco demora mais tempo a desvanecer-se do que nas planícies. Fica suspenso entre os muros de granito, mistura-se com o ladrar distante de um cão e o ranger de um portão que alguém fecha antes de entrar para jantar.