Artigo completo sobre Silvã de Cima: vida entre o granito e o Dão
Uma freguesia de Sátão onde 425 habitantes preservam tradições rurais a 553 metros de altitude
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O sol da tarde entra oblíquo pelas janelas de pedra, desenhando rectângulos de luz dourada no chão de terra batida. Aqui, a 553 metros de altitude, o ar tem uma qualidade particular — seco no Verão, cortante no Inverno, sempre transparente. Silvã de Cima respira ao ritmo das estações, sem pressa, com os pés assentes no granito e a cabeça voltada para as encostas que descem em direcção ao vale do Dão.
A freguesia estende-se por 688 hectares de terra vincada pelo tempo e pelo trabalho humano. Quatrocentos e vinte e cinco habitantes distribuem-se pelas casas de xisto e cal, pelos quintais onde ainda se cultivam couves e batatas, pelas eiras onde o milho seca ao sol de Setembro. Os números contam uma história conhecida no interior: trinta e nove crianças, cento e trinta e quatro idosos, um equilíbrio precário entre o que parte e o que fica.
A marca do passado na pedra
A Igreja Paroquial de Silvã de Cima, com a sua fachada austera de granito do século XVIII, ancora a memória colectiva. O seu portal manuelino, transplantado de um antigo mosteiro beneditino em 1755 quando a igreja foi reconstruída após o terramoto, testemunha séculos de devoção. Aqui ninguém posa para fotografias estudadas — a autenticidade não se encena, existe na textura das paredes onde se lêem 14 de Agosto de 1926, data da última grande remodelação paga pelos emigrantes brasileiros.
O território integra a região demarcada do Dão desde 1908, quando Joaquim Augusto de Sousa, então presidente da Câmara de Sátão, liderou a petição para inclusão dos vinhedos da freguesia. As vinhas de Jaen e Alfrocheiro ainda se agarram aos socalcos de xisto acima da Ribeira de Silvã. Na adega colectiva, fundada em 1958, quinze produtores continuam a fazer o vinho que o abade Correia de Carvalho já elogiava em 1872: "tinto de corpo médio, que não desdenha a companhia dos melhores da vizinha Tábua".
O silêncio habitado
A densidade populacional — 61,8 habitantes por quilómetro quadrado — traduz-se numa experiência física de espaço. Caminha-se quilómetros sem cruzar ninguém, apenas o ladrar distante do Sultão do Sr. António, o tilintar das chocalhas quando as 120 cabras de Dona Amélia descem do Carrascal. O silêncio aqui não é vazio; está cheio de pequenos sons que a cidade ensurdeceu: o ranger do portão da casa onde o Dr. Ramiro exerceu medicina durante 43 anos, o farfalhar das folhas de sobreiro que ainda hoje se descasca em Junho, o murmúrio da Levada do Ribeiro que abasteceu os regos antes da chegada da canalização em 1987.
Há uma moradia disponível para alojamento — a antiga casa do mestre-escola, onde António Lopes Ferreira lecionou de 1942 a 1976 a três gerações de silvanenses. É o único ponto de paragem para quem procura exactamente isto: a ausência de opções, a impossibilidade de estar sempre a escolher, a rendição ao ritmo do lugar. Sem restaurantes assinalados — o café do Zé Pequeno fechou em 2019 quando a dona se reformou — Silvã de Cima oferece o luxo cada vez mais raro de não ter nada programado.
Ao anoitecer, quando as luzes se acendem nas janelas espalhadas pela encosta, a freguesia desenha-se em pontos luminosos contra o escuro do Monte do Colcurinho. O fumo sobe direito das chaminés, cheirando a lenha de carvalho cortado na serra. Fica o frio da noite na pele — os 3,2 graus médios de Janeiro — o peso do cobertor de lã tecido nos tear da avó, o silêncio denso que só se quebra quando o mocho-galego grita algures no souto onde, em tempos, se fabricava o carvão que aqueceu as cozinhas de Viseu.