Artigo completo sobre Faia: onde o Vale do Mondego dita o tempo
Freguesia de Sernancelhe a 565 metros, entre vinhas, memória medieval e tradições quaresmais
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O silêncio do Vale do Mondego tem peso. Não é ausência de som — é o rio a correr lá em baixo como quem conversa consigo mesmo, é o vento a mexer nas vinhas em socalcos, é o sino da igreja que marca as horas sem pressa nenhuma. Faia fica a 565 metros, entre o céu e o Mondego, e quem chega depressa percebe que aqui o tempo não se conta pelo relógio. Conta-se pela luz que muda nas encostas, pelo cheiro da terra molhada, pelo frio que sobe do rio ao amanhecer. São 160 pessoas, 362 hectares, e um ritmo que só quem vive aqui conhece.
Pedra que guarda séculos
A Igreja Matriz é do século XIII, mas o que interessa é que ainda está de pé, aguentando-se à paulada de tempo. As janelas manuelinas fazem desenhos de luz no chão de pedra, e as sete capelas espalhadas pela freguesia são como marcos de um GPS de fé — nenhuma fica longe de outra, mas todas exigem subida. Nas casas antigas, há cruzes na cantaria como quem assina "estive aqui" há quinhentos anos. A Fonte Romana continua a dar água fria, a mesma que há séculos mata a sede de quem passa. Na rotunda do Cruzeiro, Nossa Senhora dos Caminhos vigia a entrada da aldeia, e em breve terá ao lado uma locomotiva a vapor — máquina de ferro que pertenceu ao neto do primeiro Presidente da República. Parece brincadeira, mas é mesmo. Ferro e vapor no meio dos olivais.
Quando as almas são encomendadas à noite
Na Quaresma, o Grupo de Encomendação das Almas percorre as ruas e canta como se o mundo fosse acabar amanhã. É um som que mete arrepios, mesmo quem não é crente fica quieto. Em janeiro, o Grupo de Cantares bate às portas e canta contra o frio — é tradição, mas também é jeito de dizer "estamos cá". No Domingo de Ramos, trocam-se ramos de oliveira e folares, e na Consoada faz-se a Sopa de Natal que nenhum livro regista. Cada casa tem a sua, e cada uma é a única verdadeira. Na Festa de São Pedro, o peixe do Mondego vem em escabeche, o cabrito assa no forno de lenha, e os coscoréis são doces que se desfazem na boca — engordam, mas quem se importa?
Maçãs e estrangeiros no vale
Foi aqui que o Engenheiro Joaquim de Arriaga, no século XX, teve a ideia de plantar maçã Bravo de Esmolfe a sério. Disse-se visionário, mas o que ele fez foi ver que esta terra, além de vistas, dava fruta. Hoje, são holandeses e ingleses que chegam, compram quintas junto ao rio e dizem que é para "viver em paz". O Prémio Literário Emília Paiva Diniz, criado pela Junta, recebe textos de todo o lado — assim o nome de Faia viaja sem a aldeia precisar de tirar os pés de cima da mesa.
O Roteiro dos Periqueiros serpenteia entre vinhas e olivais, e em cada curva o Mondego aparece outra vez, prateado e lento. Ao fim da tarde, quando a luz pega fogo às encostas e o ar arrefece, o vale parece suspirar. É nesse instante — entre o último sino e a primeira estrela — que Faia mostra o que sabe: não se trata de parar o tempo, mas de finalmente o sentir passar.