Artigo completo sobre Lamosa: Vida e Fé a 790 Metros na Serra de Leomil
Três romarias, 179 habitantes e vinhas em socalcos definem esta freguesia de altitude em Sernancelhe
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A estrada sobe e, perto das oito curvas, começa-se a sentir o cheiro a silvestre que só existe acima dos 700 m. Lamosa aparece de rompante: casas baixas, granito cinzento-rosado com veios de xisto, telhas de ardosia que o vento já deslocou. São 179 almas, mas o número muda consoante quem está na taberna a contar — ninguém põe de parte os que emigraram e ainda têm chave sob o capacho.
A geografia da devoção
Três romarias bastam-lhe ao ano. Em Maio, Nossa Senhora das Necessidades: levam-se bolos de milho e ramos de louro, porque o louro dura o caminho todo sem quebrar. Agosto é da Lapa: a procissão desce da capela até à fonte, onde se bebe três goles seguidos para “desenterrar” o fígado. Em Setembro, Ao Pé da Cruz, acendem-se velas de cera amarela que ninguém apaga — deixam-se arder até ao fim, mesmo que o vento tente. Entre elas, as capelas ficam trancadas, mas as chaves estão na casa da Dona Guida: bate-se à janela da cozinha, ela limpa as mãos no avental e vai abrindo.
Nas vésperas, o forno do Carvalho trabalha sem parar. O pão é do tamanho do antebraço, cortado ao meio e recheado com chouriço que ainda fuma. Quem chega de fora traz garrafas de plástico cheias de vinho da terrinha — não é do Porto, é do vale ao lado, mas faz o mesmo efeito: desata a conversa.
Viver a 790 metros
O nevoeiro é o primeiro vizinho a acordar, todos os dias sem falta. Às sete ainda não se vê o chão do adro; às dez já se adivinha a linha do Marão. O frio não é só temperatura — é peso. Entra pelas frestas das janelas de madeira, instala-se nos cobertores, faz ranger as tábuas do soalho. Por isso as lareiras são de tamanho generoso: queimam-se dois cepos de carvalho por dia, um à hora do almoço, outro à jantar. Quem se esquece de tapar a grelha leva com um sermão da avó: “É o fumo que guarda a casa, não és tu”.
O silêncio, quando chega, tem sabor a terra queimada. Quebra-se com o correr da água na levada ou com o raspar da enxada nos socalcos. À noite, se o céu estiver limpo, as estrelas parecem tão baixas que se podem tocar com a vara dos pés de vinha. Nessa hora, a única luz que compete vem do candeeiro da taberna, que o Zé deixa aceso até às duas — “para o pessoal da estrada não se perder”.
A freguesia não tem pressa. As vinhas são podadas depois de três geleiras, nunca antes. O pão leva três horas a cozer, o vinho dois anos a repousar. E quando o sol se põe atrás do Carrascal, o sino da torre toca três vezes: uma para os vivos, outra para os mortos, a última para quem ainda vai chegando.