Artigo completo sobre Penso e Freixinho: vinhas velhas e lagaradas cantadas
Freguesia de Sernancelhe onde os jalões ecoam nas vindimas e os espigueiros guardam memória rural
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O sino da Igreja de Penso toca às sete e meia — não há campónio, só um ferro pesado que bate na campã desconjuntada. O som sobe o adro, desce a rua da Fonte e perde-se na brenha do castanhal. É domingo, o nevoeiro agarra-se aos telhados como algodúo molhado e o café O Cántaro ainda não abriu. Espera-se pelos primeiros clientes com o jornal de ontem à porta.
A pedra que aquece
A igreja tem cheiro a rancio e a cera de abelha. As paredes de dois palmos fazem o relógio atrasar no Inverno — quem se esquece do casaco fica com os ossos gelados. Na Capela da Lapa, a porta range sempre no mesmo sítio. Dentro, os olhinhos de prata mexem-se com a corrente do ar: olho direito de 1953, depois da queda do muro da eira; olho esquerdo de 1978, quando a Ana recuperou a vista — ninguém acreditava, mas ela jurou que viu o cão do Mário a passar-lhe à frente. O padre Guardião conta que os ex-votos aumentam depois das vindimas, quando o vinho ainda está a fermentar e as pessoas lembram-se do que prometeram.
Uva aos pés, mão na cona
Em Setembro, o cheiro a álcool começa às seis da manhã. Nas adegas, os cântaros de cimento rangem quando o Mário atira a uva com a forquilha. A rapaziada tira os sapatos, sobe para o lagar e começa o compasso: pé esquerdo, pé direito, roda a uva, não atropes o jalão. O cântico é só para despachar — ninguém quer estar ali até às duas, que o cabrito já está no forno e a irmã da Amélia traziu broa de milho da Tapada. O vinho sai leve, com gosto a xisto, tal como o avô dizia: «Quem quer vinho grosso, vá para o Douro.»
Caminho sem pressa
A vereda dos espigueiros começa mesmo depois da ponte de pedra — há uma placazinha de alumínio torta que ninguém repintou desde 2004. São cinco espigueiros, mas o terceiro é o único que ainda tem porta; dentro, há palha de 2019 e um ninho de melro. O trilho desce até ao Távora por entre freixos e urzes — não é maravilha nenhuma, mas dá para molhar os pés na zona das poças, onde a água fica parada e quente. Quem quiser praia fluvial, desce até ao Varosa; aqui, é só pedra e silêncio, com o barulho da água a bater na parede do moinho do Carvalho, aquele que o filho do Zé tentou restaurar e deixou pendurado a meio.
Festa que acaba na cantiga
No dia 16 de Agosto, a Lapa enche-se de carros estacionados em segunda fila. A procissão sobe a pé, mas metade da malta desvia-se para o café dos Pires, onde se serve imperial a sessenta cêntimos. Depois da missa, distribuem-se sardinhas de um saco de plástico e pão de quinhentos gramas — quem chega tarde fica sem. O bailarico começa às dez, com o Duo Oliveira a puxar o primeiro xote; à uma da manhã, o acordeão está embriagado e o baixo desafinado, mas ninguém quer ir para casa. No fim, o céu abre-se todo: a Via Láctea é um rasto de leite derramado e as crianças já não aguentam os olhos abertos. Fica-se ali, sentado no muro da igreja, a ouvir o Távora correr lá em baixo, até o frio da pedra mandar para dentro.