Artigo completo sobre Quintela: onde o granito resiste a 854 metros de altitude
Freguesia serrana de Sernancelhe com 249 habitantes, três romarias e vinhas em socalcos discretos
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O sino da Igreja Matriz toca três vezes e o som rola ladeira abaixo como uma pedra solta. Demora a morrer, esboroa-se nas silvas e dormita nos sobreiros. Na aldeia, 249 pessoas sabem que são oito horas sem precisarem de relógio.
O ar, a 854 metros, corta a garganta de quem vem do Porto. Inverno é quando o vento traz o cheiro do fumeiro do Zé do Celeiro; verão é quando o mesmo vento leva o crocitar das cigarras até à Capela de São Sebastião. As casas, todas em granito, não foram construídas — foram encaixadas na montanha como dentes na gengiva. A pedra é quente em agosto e gelada em janeiro; nela, os miúdos escrevem os nomes com giz e os velhos lêem-nos passados trinta anos.
Três capelas, três promessas
A romaria de Nossa Senhora das Necessidades faz-se a pé desde a Lomba, onde moram os dois últimos ferreiros. Levam-se galinhas vivas, bolos de laranja e uma garrafa de aguardente para o padre. À Lapa vai-se de burro, ainda hoje, porque a encosta é ripa como navalha. Em Ao Pé da Cruz, a procissão para quando a seca aperta: desce-se com a imagem ao ombro, abre-se a boca do regato e bebe-se água parada que sabe a barro e a promessa cumprida.
Quem não volta à aldeia nesses dias é porque já não pode. Mesmo assim, deixam-lhe um lugar na mesa de pinho sob o carvalho — um prato virado, um copo vazio, um guardanapo de linha bordado pela mãe que já não vê.
O peso do silêncio
A vinha está em socalcos tão estreitos que a enxada não enterra sem roçar o joelho. Aqui o vinho chama-se vinho, não “terroir”. O Joaquim planta três mil pés, colhe em outubro com a mulher e o genro, e leva os cestos ao lagar de Vilar de Nantes porque o de Quintela fechou há dezasseis anos. Vende a uva ao cooperativo, guarda dez garrafas para o batizado do neto e outras dez para o enterro do cão.
Quem procura quartos com vista vai à procura de outra coisa. Há trasseiras disponíveis: a da Dona Alda, com os lençóis que cheiram a sabão Caseiro; a do Armindo, onde o pequeno-almoço é pão de testo ainda quente e manteiga amarela como o sol. Não há wi-fi, há morada. O código postal leva-o a entregar conversa à porta, e a primeira pergunta é sempre: “De quem é que és neto?”
Quando o sino toca de novo — três pancadas, intervalo, três —, as abelhas que sobreviveram ao inverno trepam às macieiras como quem regressa a casa. O silêncio que fica depois do último eco não é ausência; é só a montanha a respirar.