Artigo completo sobre Vila da Ponte: granito, romarias e vinhas na serra
Freguesia de Sernancelhe onde três capelas marcam a paisagem e 468 habitantes guardam tradições
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A calcada range sob os pés como uma velha máquina de escrever que ninguém quer reparar. Vila da Ponte acorda devagar, enroscada nas dobras da serra a 585 metros de altitude, onde o granito aflora entre muros de xisto como pão duro a sair do forno. O silêncio só é cortado pelo ladrar de um cão ao longe - provavelmente o Bobi da dona Aurora, aquele que sempre sai à estrada quando ouve passos. Aqui, na transição entre a montanha e o vale do Douro, o território organiza-se em socalcos e caminhos antigos que ligam capelas, fontes e casais dispersos pelos 12 quilómetros quadrados da freguesia.
As três romarias que pontuam o calendário litúrgico - Nossa Senhora das Necessidades, Nossa Senhora da Lapa e Nossa Senhora de Ao Pé da Cruz - revelam a geografia devocional deste território. Não são apenas celebrações religiosas: são pretextos para que os 468 habitantes se encontrem no largo do Celeiro, para que quem partiu para França ou Suíça regresse nos carros matriculados lá fora, para que as mulheres tirem das arcas os lenços bordados da marca dona Rosa e os homens limpem o pó das imagens que passam o ano guardadas na sacristia da igreja matriz de São Tiago. As capelas erguem-se em lugares estratégicos da paisagem - a da Lapa fica mesmo na curva da estrada municipal 654 - marcos de pedra que orientam quem caminha entre vales e cumeadas.
O peso da pedra e do tempo
O granito marca o ritmo da construção como o salário mínimo marca o fim do mês - com dificuldade. Casas térreas de paredes grossas, portais enquadrados por cantaria lavrada, cruzeiros plantados nos largos como candeeiros que não funcionam há anos. A materialidade é rude e funcional, sem ornamento desnecessário - ao contrário do que se vê naquelas casas de férias dos estrangeiros em Trás-os-Montes. As janelas são pequenas, pensadas para guardar o calor nos Invernos longos onde a lenha do eucaliptal da Quinta do Vale custa mais que o vinho, e os telhados de lousa escura reflectem a luz difusa dos dias nublados. Nos quintais, as figueiras estendem os ramos sobre muros de xisto onde cresce o musgo - as mesmas figueiras que a avó da Manuela usava para fazer doce que ninguém faz mais por preguiça de estar de pé ao fogão.
A densidade populacional - pouco mais de 36 habitantes por quilómetro quadrado - deixa espaço ao território para respirar, mas também para a solidão se instalar como visita que se demora. Os 35 jovens contrastam com os 116 idosos, e essa assimetria lê-se na paisagem: campos que já não são lavrados porque ninguém quer ser escravo da terra por 400 euros por mês, caminhos que se estreitam como calças de adolescência, casas que se fecham como bocas que não querem dizer onde dói. Mas também na resiliência dos que ficam - como o Sr. António da Padaria que ainda vai à Feira de Sernancelhe às quartas-feiras vender os seus nabos, na manutenção dos ritos, na persistência das romarias que ainda mobilizam a freguesia inteira.
Vinhas e horizontes
A inclusão na região vinícola do Porto e Douro lembra que esta é também terra de vinha, ainda que aqui, na transição para a serra, o território seja mais fragmentado que o prato de natas da dona Laura quando aparecem visitas inesperadas. As videiras crescem entre outros cultivos, em parcelas pequenas como os terrenos que o Zé Manel herdou e dividiu entre os quatro filhos - todos a viver longe, nenhum quer saber das vinhas. A vindima é assunto de família, não de turismo enológico - é a filha que vem do Porto nos fins-de-semana, o genro que se queixa das costas, os netos que só querem saber do Wifi. O vinho que aqui se faz raramente chega às garrafas de marca: fica nas pipas do lagar da cooperativa de Sernancelhe, circula entre vizinhos em garrafões de cinco litros, acompanha o chouriço do talho do Sr. Joaquim e o queijo da Serra da Estrela que a Antero traz quando desce da Covilhã.
Os três alojamentos registados - todos moradias - sugerem uma oferta turística discreta, quase doméstica. Não há hotéis nem turismo rural certificado, mas portas que se abrem a quem procura o oposto do espectáculo. Quem aqui pernoita acorda com o canto do galo do Sr. Alfredo - aquele que acorda toda a gente às seis da manhã - toma o pequeno-almoço à mesa de família com doce caseiro que a avó fez de noite, e sai para caminhar sem mapa, guiado apenas pela intuição e pela conversa de quem encontra no caminho. Pode ir até à Portela do Vale, subir ao alto da Senhora do Monte, ou descer à margem do Rio Tedo onde ainda há moinhos abandonados que parecem velhos do Restelo a olhar para o mar que não existe.
O sino da capela de São Tiago toca ao meio-dia - e não é o sino de prato da igreja nova, é o velho de ferro que o padre Américo mandou fundir em Lamego - e o som propaga-se devagar pelo vale, batendo nas encostas de xisto antes de se perder na distância. É o único relógio que importa, porque aqui ninguém se regula pelo smartphone - regula-se pela fome, pela sede, pela vontade de ir para a cama quando o Sol se põe atrás do monte do Crasto.