Artigo completo sobre Longa: vinhas, castelo medieval e chanfana no Douro
Longa, em Tabuaço, Viseu, destaca-se pelo Castelo medieval no monte Muro, vinhas do Alto Douro Vinhateiro e chanfana tradicional de bode em tacho de barro.
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O sol ainda não chegou ao vale quando o sino da Igreja de São Pelágio toca as seis da manhã. O som espalha-se devagar pelos socalcos de xisto, acorda os pardais nos olivais e bate contra a parede do monte Muro, que se ergue a 678 metros como muralha natural sobre Longa. No ar frio de setembro, o cheiro a uvas maduras mistura-se com o fumo das primeiras lareiras — lenha de medronheiro que crepita nas cozinhas de pedra.
O castelo que virou memória
No cimo do Muro, onde hoje só restam pedras soltas e uma cisterna medieval escavada na rocha, ergueu-se o Castelo de Longa. O povoado fortificado desapareceu — não há registo escrito da data da ruína, mas a 12 de agosto de 1758 o cónego Francisco de S. Luís, visitador pastoral, já referia "castello antigo hoje desfeito". A cisterna ainda recolhe água da chuva, e a lenda persiste: contrabandistas do século XIX escondiam aqui garrafões de aguardente antes de os descer, de noite, até ao Douro. O lugar é Imóvel de Interesse Público desde 1978, e os afloramentos quartzíticos guardam fósseis do Devoniano — bráquiopes e crinóides que testemunham o mar que cobriu esta terra há 400 milhões de anos. Ao amanhecer, o miradouro revela o vale do Tedo e os socalcos dourados que descem em degraus até ao rio, parte do Alto Douro Vinhateiro inscrito pela UNESCO em 2001.
Quando o bode entra no tacho
A chanfana de Longa faz-se em tacho de barro negro de Nisa, com vinho tinto DOC Douro de altitude, louro-da-terra e colorau de Murça. A carne de bode — sempre masculino, de dois anos — coze devagar no forno de lenha durante quatro horas, até o molho engrossar e impregnar a broa de milho estaladiça que se serve ao lado. Na Noite de Natal, há quem mantenha a tradição do "degolar do bode": canto ao desafio entre os presentes, acompanhado de vinho quente de especiarias e castanhas dos Soutos da Lapa — a única DOP da freguesia, colhida em outubro nos soutos que rodeiam Santa Maria do Sabroso. Nas casas, o azeite virgem extra de oliveiras centenárias — variedade cobrançosa — rega o bacalhau à lagareiro, e as compotas de figo da Cova da Beira e marmelo de Lamego aguardam nas prateleiras de granito.
O domingo em que se passa pelo ramo
No primeiro domingo de Maio, a romaria a Santa Maria do Sabroso enche o caminho de 4 quilómetros que liga a igreja matriz à capela da aldeia anexa. A procissão parte às 9h30, com as andas de madeira pintada carregadas por oito homens — quatro de Longa, quatro de Santa Maria do Sabroso. Na capela, a irmandade distribui bolo doce de canela e erva-doce, feito no dia anterior nas fornos comunais. A 4 de Dezembro, Santa Bárbara recebe ramos de medronheiro benzidos na missa das 11h: quem "passa pelo ramo" protege-se das tempestades que varrem o planalto no inverno. Na véspera de São João, as fogueiras acendem-se na praça às 22h30 e os rapazes sobem ao Penedo do Galo para lançar foguetes de cabaço — "acordar o sol", dizem desde que o pai deles, e o pai do pai deles, fazia o mesmo.
Seis quilómetros entre oliveiras
O Trilho de Longa percorre muros de pedra seca erguidos entre 1935 e 1945 — anos da fome, quando o Estado Novo mandou abrir campos de batata nestas encostas. Passa por lagares abandonados como o do Pombal, onde se lê ainda "1934" gravado na pia de prensa, e olivais plantados na década de 1950 com mudas vindas de Trás-os-Montes. O percurso circular de 6 quilómetros sobe até ao castelo, desce por entre sobreiros e estevas, passa pela ribeira de Longa — quase seca em agosto, barulhenta em janeiro — e regressa à matriz de São Pelágio. Não há pressa. A freguesia não tem semáforos, rotundas nem multibanco. O serviço bancário mais próximo fica a 7 quilómetros, no Caixa de Tabuaço que abre às 8h30 e fecha ao meio-dia aos sábados.
Quando a vindima termina — geralmente na segunda semana de outubro — e os lagares de granito são lavados com água quente e cinza, o cheiro a mosto fresco demora dias a desaparecer das ruas. Fica agarrado às paredes de xisto, aos portões de madeira gretada, ao ar frio que desce do Muro ao anoitecer.