Artigo completo sobre União de Pinheiros e Vale de Figueira: vinhas e silêncio
Socalcos de xisto e castanheiros DOP no coração menos turístico do Alto Douro Vinhateiro
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O granito ainda quente do dia agarra-se às mãos. Cheira a terra solta e a vinha em murchão. Numa vale perdida a 578 m, o Douro esqueceu-se do rio: aqui são só socalcos de xisto aguentando vinhas velhas e castanheiros novos. Pinheiros juntou-se a Vale de Figueira em 2013; continuaram os mesmos 239 habitantes e a mesma estrada municipal que sobe até à Lapa.
Vinha, castanha e o resto
As adegas produzem vinhos do Porto e Douro DOC; os soutos dão castanha com DOP. Em outembro, a vindima acaba e começam as fogueiras das magustos: ninguém estranha o cheiro a castanha queimada misturado com mosto. A igreja de Santa Eufémia serve de marco: quem pede informações ao Sr. António, na casa ao lado, acaba convidado para um copo. As festas — Santa Maria do Sabroso (agosto), Santa Bárbara (dezembro) e São João — atraem os emigrantes de França e a malta do Porto que ainda tem avós na aldeia.
Caminhar é seguir os carreiros de terra entre muros baixos. Não há placas; há bifurcações sem nome. Leve água: o café de Pinheiros abre às 7h e fecha ao fim da tarde; o de Vale de Figueira só ao fim-de-semana. Quem quiser pernoitar tem uma casa de férias no Booking; mais nada.
O que resta
Censo 2021: 78 idosos, 21 crianças. Fechas as portas das casas vazias e ouves o estalo do ferrolho a reverberar. Mesmo assim, ainda se poda à mão, ainda se faz lagar em algumas quintas, ainda se marca a hora pelo sino da igreja. Quando o sol se põe atrás do Marão, o vale inteiro fica em silêncio — só o cão do Sr. Joaquim ladrando para a sombra.