Artigo completo sobre Várzea da Serra: altitude, barroco e soutos DOP
Igreja setecentista, castanhais certificados e vacas arouquesas a 929 metros na serra de Leomil
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O sino da igreja bate ao meio-dia e o som vai-se arrastando pela encosta abaixo, como quem desce à taberna depois do almoço. Atravessa os soutos de castanheiro, bate nos espigueiros de granito e perde-se no vale. A 929 metros de altitude, Várzea da Serra respira devagar - tão devagar que até as vacas arouquesas parecem estar a fazer pausa para café. O ar é frio mesmo em junho, cheira a terra molhada e a pinho. E ao silêncio - esse silêncio que só se encontra em sítios onde o telemóvel marca um traço no ecrã.
Onde a pedra guarda o barroco
A Igreja Matriz de São Pedro está ali no meio, toda caiada, como quem se quer fazer notar entre o xisto escuro das casas. Lá dentro, o ouro do retábulo setecentista ainda tenta impressionar, mas é o chão de madeira a ranger que conta as melhores histórias. Os azulejos do século XVIII estão lá, azuis que nem o céu em dia limpo, a contar histórias bíblicas a quem os souber ler.
Mais acima, onde a encosta se torna perna de cabrito, está a Capela de Santa Helena da Cruz. Dizem que em 1640 uma cruz luminosa apareceu ali e afastou a peste. A madeira teria brotado da terra como cogumelo depois da chuva. Os doentes melhoravam só de olhar para ela. História de santo, dizem os mais velhos. Mas quem é de lá, sabe que milagres são como os cogumelos - aparecem quando menos se espera.
O caminho dos soutos centenários
O trilho que liga a igreja à capela são oito quilómetros que parecem oito séculos quando se sobe com ressaca. Chamam-lhe "Caminho dos Soutos" e é uma viagem no tempo pelos castanhais. O souto da Lapa, com cinquenta castanheiros tortos como histórias de tasca, foi o primeiro em Portugal a ter DOP. No outono, o chão fica todo espetado de ouriços - é o perigo mais próximo que estas terras conhecem.
O Ribeiro de Várzea vai fazendo companhia, saltitando entre pedras musgosas como criança no primeiro dia de escola. De vez em quando abre-se uma clareira e lá está ele - o Douro, enrugado de vinhas como a cara de um velho depois de muitos bagaços.
Carne, castanha e doce de abóbora
Na mercearia - que é também café, tasca e gabinete de psicologia - o balcão de madeira já viu mais confissões que muito padre. Vende-se de tudo: pão que ainda está quente, queijo de ovelha que fede que nem diabo, e doces de castanha que fazem esquecer a dieta.
A Carne Arouquesa é como as boas histórias - precisa de tempo. Grelha-se em brasas de carvalho, vem com batatas e castanhas que parecem pedras preciosas. A castanha da Lapa entra em tudo: na caldeirada de bacalhau, no bolo que parece tijolo mas soube ao céu, até em calda que se bebe de colher. O pão de ló vem coberto de doce de abóbora - é como ter sobremesa em cima da sobremesa. E os suspiros de Leomil desfazem-se na boca como promessas de amor de verão.
Festas de subida e descida
A 29 de junho, São Pedro desce à rua e a aldeia enche-se. Há música, há concurso de doces - onde as vizinhas competem pela receita que a avó levou para o túmulo - e bailarico que dura até o galo cantar e voltar a cantar.
No primeiro domingo de maio, a Romaria de Santa Helena sobe a encosta a pé. Vai-se cantando ladainhas que parecem lamentos, ramos de louro nas mãos como quem leva esperança ao bolso. Em outubro, a Feira da Castanha transforma a praça numa cozinha ao ar livre. Foge-se o cheiro a castanhas assadas que atrai mais gente que o cheiro a sardinha no Verão. E no Entrudo, os mascarados das "folias" vão de porta em porta a pedir ovos e toucinho, cantando quadras que metem medo à sogra.
Ao fim da tarde, no miradouro da Cruz da Senhora, o sol põe-se como quem se despede do café - devagar, a prometer voltar amanhã. O vento traz o cheiro a fumo de lenha das lareiras. Lá em baixo, uma vaca mugiu - deve ser a Mariazinha, que sempre foi tagarela. O sino toca as Ave-Marias, avisando que é hora de ir jantar. Em Várzea da Serra, o tempo é como o vinho da casa - não se conta em horas, conta-se em histórias.