Artigo completo sobre Campo de Besteiros: laranjais, xisto e memória rural
Freguesia de Tondela onde a vinha se organiza em socalcos e o aroma a citrinos marca a paisagem
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O aroma da laranja chega antes de se avistar a aldeia. Sobe pelas encostas de xisto, mistura-se com o cheiro a lenha de carvalho que sai das chaminés, espalha-se pelos pomares onde o fruto ainda pende dos ramos. Em Campo de Besteiros, a paisagem anuncia-se pelo olfacto: terra húmida, casca de citrino, fumo de morcela a curar. O Ribeiro de Besteiros corre discreto entre vinhedos, e o silêncio só é interrompido pelo sino da igreja ou pelo ladrar distante de um cão pastor.
Campo dos animais, terra de pastagens
O nome vem do latim campus bestiarum — campo dos animais — e remete para os tempos medievais em que estas encostas serviam de pastagem comum a várias vilas vizinhas. Desde o século XIII que aqui se planta vinha e se lavra a terra, numa continuidade que atravessou o foral manuelino de Tondela (1514), a filoxera, a emigração para o Brasil e França. Os 792 hectares da freguesia estendem-se entre os 250 e os 400 metros de altitude, numa transição suave entre o planalto do Dão e as primeiras subidas do Caramulo. A vinha organiza-se em socalcos, os olivais centenários ocupam as zonas mais expostas ao sol, e nos vales mais fundos ainda se cultiva a laranja que, até à década de 1950, viajava de comboio até ao cais de Santa Comba Dão e daí de barco para os mercados de Londres.
São Sebastião e o retábulo que sobreviveu ao fogo
A Capela de São Sebastião, única construção classificada como Imóvel de Interesse Público, ergue-se no lugar do Cimo da Igreja. É um templo barroco do século XVIII, pequeno mas ornamentado, com retábulo de talha dourada e painéis de azulejo setecentistas. A imagem do santo, datada de 1723, escapou ilesa a um incêndio que destruiu o altar-mor — facto que alimenta até hoje a devoção local e justifica a procissão de 20 de janeiro, quando ranchos folclóricos percorrem as ruas ao som de vira e chula, terminando com a bênção dos animais à porta da capela. A Igreja Matriz de São Tiago, reconstruída em 1892 sobre alicerces medievais, guarda um órgão de tubo de 1896 e, no adro, um cruzeiro granítico de 1774 com inscrição latina já gasta pelo vento.
Borrego, vinho e o ritual da serração
A cozinha de Campo de Besteiros reflecte a dupla influência da serra e do vale. O ensopado de borrego Serra da Estrela DOP cozinha lentamente com hortelã-pimenta e vinho branco; a chanfana de bode ganha corpo em panela de barro negro. Nos dias mais frios, a sopa de milho triturado com couve galega e toucinho fumado aquece as mesas. A morcela de arroz fuma em chaminé de carvalho durante três dias, a farinheira leva trigo-mourisco, e os queijos Serra da Estrela DOP e requeijão ainda se fazem nos caseiros de xisto. À sobremesa, o bolo de laranja de Besteiros — massa aromatizada com raspa e sumo da fruta local — e os doces de gila e de ovo. Tudo se harmoniza com vinho do Dão, sobretudo os tintos de jaen e touriga-nacional das quintas da freguesia. Em janeiro, durante a "serração" da vinha, os vizinhos ajudam-se mutuamente na poda e, ao entardecer, partilham caldo verde, broa de milho e vinho tinto.
Trilhos, pomares e o lagar de lagarto
O trilho pedestre de 8 km, sinalizado pela Câmara de Tondela em 2018, liga a capela ao miradouro do Cimo da Serra, onde o olhar alcança o vale do Dão e a silhueta do Caramulo. Pelo caminho, olivais com mais de 200 anos, pomares de pêssego, esteva e urze. A Quinta do Vale da Laranjeira aceita visitantes para provar laranja acabada de colher — é preciso marcar com dois dias de antecedência através da página de Facebook. A Queijaria da Vinha organiza sessões de degustação de queijo Serra da Estrela aos sábados, e no restaurante "O Lagar" serve-se ensopado de borrego acompanhado por vinho da região. Junto ao ribeiro, o antigo lagar de lagarto, em xisto, funcionou com energia hidráulica até 1960 e hoje é ponto de paragem no roteiro da vinha.
A luz da tarde pousa sobre os socalcos como mel espesso. O granito das pontes medievais aquece ao toque, e o murmúrio da água no ribeiro mistura-se com o canto de um melro escondido na vinha. Aqui, o que fica não é uma imagem — é o peso da laranja na palma da mão, o aroma da casca a rebentar entre os dedos.