Artigo completo sobre Canas de Santa Maria: onde o xisto guarda séculos
Três capelas classificadas e vinhedos do Dão numa freguesia medieval de Tondela, Viseu
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O sino da igreja soa três pancadas às 11h00 — não há relógio no campanário, mas o sacristão cumpre o hábito de sempre. O eco desce as linhas de vinha que o abade António Alves plantou em 1912, ainda hoje identificadas pelos muros de xisto que divide a herdade da Quinta do Cão. Na traseira da Capela de São Sebastião, o espigueiro erguido em 1937 pelo carpinteiro José da Conceição guarda o milho híbrido que a cooperativa de Canas começou a distribuir em 1987; ao lado, o gato malhado pertence à família Gomes, única que ainda tem casa sem canalização dentro do perímetro classificado.
Canas de Santa Maria não grita a sua história — deixa-a nos registos paroquiais que o padre José Martins Guarda catalogou entre 1865 e 1892. O foral de D. Afonso III, confirmado em 1253, concedeu foro ao prior do Mosteiro de Santa Maria de Viseu, mas a freguesia só aparece nas «Memórias Paroquiais» de 1758 como «Casas de Canas», com 46 fogos e 180 almas. A Igreja Matriz, classificada como Monumento Nacional em 1922, tem nave românica do final do século XIII e abside gótico acrescentado depois de 1535. O retábulo-mor, atribuído ao talhaador José de Almeida (activo em Viseu entre 1710-1740), custou 800.000 réis pagos pela Irmandade do Santíssimo Sacramento em 1723 — ainda hoje se lê a conta no livro de tombo, guardado no arquivo paroquial.
Três monumentos, nenhuma romaria
A paróquia gere os três imóveis classificados: a igreja matriz (MN), a Capela de São Sebastião e a Capela da Conceição (ambas IIP desde 1978). Não há romarias porque nunca houvessermos — as procissões de 15 de Agosto e 20 de Janeiro percorrem as mesmas ruas desde pelo menos 1801, ano da primeira referência escrita no «Livro de Festas». A banda filarmónica de Tondela tocou aqui em 1974 e nunca mais voltou; o presidente da Câmara de então, Dr. António Ferreira, explicou que «não havia lugar para arraial». A tradição aguentou-se: missa, procissão de traje, esmola ao padre, fim.
Hotspot gastronómico em miniatura
Dos 1.607 habitantes, 42 são produtores registados: 18 de borrego Serra da Estrela, 9 de Arouquesa, 15 de queijo DOP. A queijaria da D. Irene (rua da Igreja, nº 14) abre às 16h00 quando o leite da ordem das 13h00 coalha — telefone 232 941 233, mas é melhor bater à porta. O borrego de leite nasce nos currais do Sr. Albano, herdade da Lagariça, e vai para o forno de lenha da Dona Lurdes na terça-feira seguinte à matança (marcações através da Junta, segunda a sexta das 10h00 às 12h00). O vinho é do Dão: Quinta do Cão, Quinta da Taberna e Quinta do Mondego são as três marcas que engarrafam dentro da freguesia — a garrafeira fica na adega comunitária, aberta sábados das 15h00 às 18h00 ou quando o Sr. Jacinto «não tem jogo de sueca».
Vinhas, xisto e o Dão ao longe
O cadastro de 1958 regista 112 ha de vinha em producão; hoje são 87 ha, concentrados na encosta sul a 315 m de altitude. O Rio Dão passa a 3 km, na foz da Ribeira de Besteiros — o acesso é pela estrada municipal 511, depois desvio de terra batida junto ao marco geodésico 315-C. A Serra do Caramulo fica a 12 km pela EN230 até o Alto da Portela (540 m), onde começa o trilho PR1 TON que liga Tondela à Cascata da Cabreia. Dentro da freguesia, o percurso pedonal «Caminho do Xisto» tem 2,4 km e liga a igreja à capela da Conceição, passando pelo espigueiro de 1937 e pelo cruzeiro de 1942 mandado erigir pela família Guedes em memória do filho morto na Flandres.
A estrada para Tondela é a M514, larga para um carro e meio; quem vai de bicicleta sobe o mesmo traçado que o comboio de Santa Comba Dão usava até 1988, quando a linha do Vouga deixou de parar na estação de Canas. Ao km 3, o cruzeiro de granito tem a inscrição «ORAÇÃO PELOS VIVOS 1946» — a água da fonte já não é potável, mas o Sr. Jacinto mantém o copo de alumínio pregado ao muro «porque os ciclistas pedem». Quando o sino volta a dobrar são 12h00: na padaria a porta fecha às 13h00, na taberna abre às 14h00, e o pão de milho da Dona Lurdes esgota sempre antes das 12h30.