Artigo completo sobre Lobão da Beira: onde o xisto guarda segredos de cantaria
Igreja de S. Julião e cruzeiro setecentista com assinatura do escultor marcam esta aldeia de Tondela
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O eco dos passos na calçada irregular ressoa contra as fachadas de xisto, e o cheiro a lenha de castanheiro mistura-se com o aroma húmido da terra que ainda guarda a chuva da véspera. Lobão da Beira acorda devagar, ao ritmo das galinhas que cisam nos quintais e do sino de S. Julião que marca as sete da manhã. Aqui, a 263 metros de altitude, o planalto ondulado entre o Dão e o Mondego desenha-se em socalcos de vinha, soutos e olivais que descem suavemente até ao vale. Não há semáforos, nem pressa — apenas os mil e dois habitantes que mantêm viva uma das comunidades mais discretas do concelho de Tondela.
O santo, o cruzeiro e a memória gravada na pedra
A igreja matriz ergue-se no centro da aldeia, dedicada a S. Julião, padroeiro cujo nome baptiza a freguesia desde os registos paroquiais do século XVI. O templo, de arquitectura popular beirã, guarda retábulos barrocos e um painel de azulejos setecentistas que filtra a luz da manhã em tons de azul e branco. No adro, o cruzeiro de pedra datado de 1786 conserva uma raridade: a inscrição original com o nome do escultor, «António Luís, pedreiro», gravada na base. É um dos poucos exemplares da região que ainda revela a mão que o esculpiu, transformando o monumento classificado como Imóvel de Interesse Público num arquivo vivo da cantaria beirã.
Espalhados pela freguesia, pequenos capitéis de cruzeiro marcam caminhos que outrora ligavam Viseu à Serra da Estrela. As duas fontes lavageiras setecentistas — Fonte da Vila e Fonte do Vale — mantêm as bicas de água fria que escorrem sobre o granito gasto pelas mãos de gerações. Nos muros das antigas eiras, o xisto empilhado sem argamassa resiste ao tempo, testemunho de uma arquitectura que nasceu da necessidade e se tornou identidade.
Histórias de vidas contadas ao desafio
No primeiro domingo de agosto, a pequena romaria de S. Julião reúne a comunidade para missa campal, arraial com música de concertina e caldo verde servido em tigelas de barro. Não há feiras medievais nem multidões, mas a festa conserva o essencial: o encontro, a cantiga ao desafio, o vinho servido em jarros. Em novembro, o magusto organizado pela Junta de Freguesia aproveita as castanhas da Serra da Estrela e transforma o largo numa celebração da oralidade — histórias de transumância, de trabalho nos campos, de vidas tecidas no calendário agrícola.
Em 2020, a iniciativa cultural «Lobão da Beira – Histórias de Vidas», promovida pela ACERT, deu forma a um filme-documentário em que seis habitantes locais narram as suas memórias. O resultado é um arquivo vivo da identidade beirã, onde a voz dos mais velhos — 300 dos 1002 habitantes têm mais de 65 anos — se transforma em resistência contra o esquecimento.
À mesa, os produtos da Beira Alta
A cozinha de Lobão da Beira faz-se de produtos DOP e de fogo lento. O borrego Serra da Estrela guisa-se com vinho branco do Dão, enquanto a chanfana de bode fermenta horas no forno de lenha, acompanhada de pão de milho. Os enchidos — chouriço de vinho, farinheira e morcela de arroz — secam nas chaminés de xisto, perfumando as casas com o cheiro a fumo e especiarias. Na doçaria, a tijelada de fio de ovos e o bolo de noz surgem nas festas de S. Julião, acompanhados de vinho de Touriga Nacional produzido nas pequenas quintas que pontilham os socalcos. O queijo Serra da Estrela DOP e o requeijão fresco fecham a refeição, servidos com o azeite amarelo-esverdeado que escorre dos lagares da região.
Trilhos, moinhos e o vale que se adivinha
O percurso pedestre PR4 «Trilho dos Moinhos» liga Lobão da Beira a Molelos ao longo de seis quilómetros marcados a amarelo. O caminho serpenteia entre soutos de castanheiro, levadas de irrigação e moinhos de água que já não moem centeio mas conservam a estrutura de pedra e madeira gretada pelo tempo. Do alto dos miradouros, o vale do Dão desenha-se em tons de verde e castanho, pontuado pelo voo planado dos abutres-do-ventre-negro. Nos matagais de esteva e carqueja, o silêncio só é interrompido pelo grito agudo das corujas-das-torres ao anoitecer.
No ribeiro de Besteiros, pequenos poços naturais oferecem refresco no verão, enquanto a eira comunitária — uma das mais antigas do concelho — ainda serve para debulhar o centeio, perpetuando gestos que a mecanização não apagou. O núcleo museológico improvisado na antiga escola primária expõe ferramentas agrícolas e fotografias a preto e branco, onde rostos sérios olham a câmara com a dignidade de quem trabalhou a terra.
O fumo que sobe das chaminés ao entardecer desenha linhas verticais no céu cada vez mais alaranjado, e o cheiro a chouriço no fumeiro anuncia o jantar. Em Lobão da Beira, a memória não se guarda em museus — vive-se nas eiras, nos cruzeiros, nas mãos que ainda amassam o pão e nas vozes que cantam ao desafio.