Artigo completo sobre Mosteiro de Fráguas: fumeiro e vinhas no Dão
Freguesia de Tondela onde o borrego DOP e os vinhos do Dão definem a gastronomia serrana
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O fumeiro cheira-se logo pela manhã. Nas casas de pedra, o chouriço vai ganhando cor ali pendurado, e o cheiro escapa-se pelas ruas tão estreitas que os cães têm de se virar de lado. Estamos a 356 metros de altitude, no meio do Dão, onde 672 pessoas continuam a fazer o que os pais fizeram: olhar para o céu antes de sair de casa.
O peso da pedra e do tempo
Há quem diga que o nome vem de um mosteiro. Hoje só resta o que resta - um monumento que nem os mais velhos sabem bem para que servia. Mas a pedra é fina e dura, do tipo que faz mosso nos joelhos quando se está de joelhos. A aldeia espalha-se pela encosta como quem deita a conversa fora: devagar, sem pressa, cada casa onde deu jeito pô-la. São 61 almas por km², o suficiente para quando se parte uma azinheira no cemitério toda a gente saber quem foi.
223 idosos, 69 putos. Faz as contas. Mas quem cá fica conhece cada ponto de água, cada muro onde a figueira dá figos doces, cada vale onde o nevoeiro se agarra até ao meio-dia.
Sabores com denominação
O borrego é mesmo da Serra - está escrito na pele dele. Pasta aqui ao lado e sabe a mirto e a alecrim que os velhos ainda vão buscar à serra domingos de manhã. A Carne Arouquesa é outra história: é da vizinha, mas entrámos-lhe dentro há tanto tempo que já é nossa. Come-se grelhada com sal grosso, ou vai para o forno de lenha quando há festa.
O queijo é o que é - não vale a pena explicar. Quem não gosta de Serra da Estrela é como quem não gosta de futebol: pode-se fingir, mas dá-se ao tranqueira. O vinho é do Dão e pronto. Não é bebida - é o que se bebe. Às vezes é tinto quando devia ser branco, mas isso são pormenores.
Rotinas visíveis
Às cinco e meia começa o movimento. Tratores a aquecer, galinhas a queixar-se, o café do João a abrir portas. Há pão? Há, se fores cedo. Acaba-se depressa, porque ninguém aqui come aquela coisa que vem em sacos de plástico. O pão é do Carlos, que faz como o pai fazia, que fazia como o avô fazia. O ciclo continua.
O senhor António passa com a mula - sim, ainda há. Carrega lenha da serra, troca-se em favores: hoje ajuda-te, amanhã ajudo-te. O dinheiro serve para o que não se pode trocar: café, gasóleo, o que se vai estragando.
O que fica
Quando o sol se põe atrás da serra, a aldeia fica em tons de tijolo. O fumo sobe direito das chaminés - sabe-se logo quem está em casa. O silêncio é tão grande que se ouve o rio, lá em baixo, a discutir com as pedras.
Mosteiro de Fráguas não é para visitar. É para estar. Sentar no muro do adro, ver as andorinhas a fazer fila debaixo do beiral, ouvir o vizinho a rachar lenha como quem conta a vida. Não há monumentos para selfies, não há souvenir nenhum. Só o que fica: o cheiro do fumeiro que se agarra à roupa, o gosto do vinho que nos faz falar alto, a certeza de que amanhã, se Deus quiser, o pão volta a estar na mesa.