Artigo completo sobre Mouraz e Vila Nova da Rainha: Vinhas do Dão em Granito
União de freguesias em Tondela onde o vinho e a história régia se encontram entre socalcos
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O cheiro a vinho tinto escapa pelas frestas das adegas e mistura-se com o pó que levanta dos cântaros de barro empilhados ao lado da estrada. Em Mouraz e Vila Nova da Rainha, as vinhas subem as encostas como escadas para o céu, presas por muros de granito que o musgo foi tapando ao longo dos séculos. A ribeira de Mouraz passa lá em baixo, conversando com os sobreiros, enquanto os melros discutem nos olivais. Estamos a quase 300 metros de altitude — o sol bate de frente nas vinhas o dia todo, mas lá para as cinco da tarde a Serra do Caramulo manda a brisa que salva as uvas do Dão.
Duas aldeias, uma coroa
Histórias de rainhas e mouros. A Isabel doou terras no séc. XIII e nasceu Vila Nova da Rainha; Mouraz guarda no nome o que sobrou dos árabes que cá andaram. Na igreja de Mouraz, os retábulos dourados parecem querer competir com os azulejos do século XVIII — tudo azul cobalto e histórias da Bíblia que até o pessoal que não vai à missa conhece de cor. Em Vila Nova, os arcos manuelinos da matriz lembram que o gótico tardio também cá deu cartaz. Entre uma e outra, capelas como a de São Sebastião servem de descanso para quem vai a pé vindimar ou só quer queimar as calorias do jantar.
O sabor do Dão
O vinho não é bebida, é geografia. Desde 1908 que esta terra é Região Demarcada do Dão — e nota-se. Touriga Nacional, Alfrocheiro e Jaen são as castas da casa, vindimadas à mão em Setembro quando o calor ainda aperta mas as noites já pedem um casaco. Na chanfana, a carne de bode desfaz-se no vinho como quem se rende — alho, louro e pimenta preta fazem o resto. O arroz de carqueja é amargo que nem a vida, mas há quem jure que é bom para o fígado.
Barro e tradição
Mouraz é "terra dos cântaros" porque aqui o barro vermelho ainda vira jarros nas mãos de quem aprendeu o ofício antes de saber ler. Nas oficinas que restam, a roda gira devagar e o barro pede paciência: seca rápido demais, racha; devagar demais, apodrece. Os oleiros locais não têm pressa — dizem que o barro é como vinho bom, faz-se no tempo dele.
Entre vinhas e ribeiros
Os trilhos que ligam as duas aldeias são os mesmos de sempre: muros de pedra solta, sobreiros rugosos e a ribeira de São João a saltar sobre pedras onde os miúdos aprendem a nadar. No Outono, os soutos largam castanhas que estalam ouriços e os pássaros da ribeira — garças-reais, guarda-rios, lavandiscas — fazem escala antes de irem para o Mondego. Não há parques naturais com placas, mas bastam uns minutos de silêncio para perceber que isto já é protegido há séculos por quem cá vive.
Quando o sol se põe e os tractoristas fecham os portões, o cheiro a lenha queimar substitui o do vinho. Nas adegas, o vinho dorme nas barricas enquanto lá fora os olivais sussurram — folhas prateadas a roçar umas nas outras como quem diz boa-noite.