Artigo completo sobre Tondela e Nandufe: granito, história e feira centenária
Vila que foi distrito durante 19 anos preserva pelourinho quinhentista e feira mensal com 8 séculos
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O sino da Igreja Matriz bate as horas sobre telhados de barro vermelho e o eco ressalta no granito das fachadas do centro histórico, perdendo-se depois rua abaixo, em direcção ao vale. É manhã de domingo — primeiro domingo do mês — e a feira mensal de Tondela já respira. Há bancas de broa de milho e centeio alinhadas junto ao pelourinho quinhentista, onde uma inscrição de 1835 ainda se lê na pedra gasta: «A Lei é Igual para Todos». O cheiro a chouriço de vinho grelhado na brasa mistura-se com o aroma terroso das couves empilhadas em caixotes de madeira. Uma mulher de avental escuro corta fatias de Queijo Serra da Estrela DOP sobre papel pardo, e a pasta cremosa escorre devagar, quase relutante, antes de atingir o pão. Esta feira tem raízes no foral que D. Sancho I concedeu em 1195 — mais de oito séculos de trocas no mesmo chão.
A vila que foi capital por dezanove anos
Poucos sabem que Tondela ostenta uma singularidade administrativa única em Portugal: entre 1836 e 1855, foi sede de um distrito com o seu próprio nome, extinto depois pelas reformas liberais que redesenharam o mapa do país. Dessa ambição breve restam marcas no tecido urbano — a Antiga Casa da Câmara e Cadeia, construção oitocentista de paredes espessas, e o Solar do Conde de Tondela, fachada setecentista de cantaria lavrada que hoje alberga instituições locais. O topónimo, documentado desde 1195 como «Tondela» ou «Tondella», remete para a ideia de pequena vila ou vila circular, e há algo de circular, de facto, no modo como as ruas do centro convergem para o pelourinho classificado como Imóvel de Interesse Público. A coluna de pedra do século XVI ergue-se discreta, sem a monumentalidade de outros pelourinhos beirões, mas carrega um peso simbólico denso: foi aqui que se proclamou a justiça municipal durante séculos.
A Igreja Matriz, também quinhentista, guarda no interior um retábulo maneirista e painéis de azulejo setecentista cujo azul-cobalto contrasta com a penumbra da nave. A luz entra enviesada por janelas estreitas e ilumina fragmentos — um rosto de santo, uma folha de acanto, o dourado baço da talha. Do lado de fora, a Capela de São Sebastião, seiscentista, recorda a festa de 20 de Janeiro, quando a bênção de animais e a fogueira no largo aquecem as mãos e os ânimos numa das noites mais frias do ano.
O Bestança e os moinhos que ainda giram
A caminhada pela Rota do Bestança, no troço de cinco quilómetros entre Tondela e Nandufe, é a melhor forma de entender a geografia íntima desta união de freguesias. O Ribeiro de Bestança — afluente do Dão e considerado um dos cursos de água mais limpos de Portugal, referência para estudos de ecossistemas lóticos — corre entre margens de carvalho-alvarinho e sobreiros, sobre leitos de granito polido pela corrente. A água é transparente ao ponto de se distinguirem os seixos no fundo, e o som que faz ao embater nas pedras maiores é um murmúrio grave, constante, quase hipnótico. Ao longo do percurso surgem moinhos de água com paredes de xisto escuro cobertas de musgo, e levadas que desviam a corrente para hortas em socalcos. A Ponte de Nandufe, de arco único medieval, desenha um semicírculo perfeito sobre o ribeiro — e a sua imagem reflectida na água completa o círculo, como se a pedra e o rio tivessem feito um pacto antigo.
Nandufe mantém uma identidade rural que se sente no silêncio das manhãs, quebrado apenas pelo canto de um galo ou pelo ranger de um portão de ferro. Nos cruzeiros setecentistas e oitocentistas que pontuam caminhos e encruzilhadas, o granito escureceu com os séculos, e líquenes amarelados desenham mapas abstractos na superfície. A ermida de Santo António, no cimo do monte, guarda a chave do lugar - literalmente. Quem quiser visitar tem de pedir ao Sr. António, que vive na casa branca de porta azul, a única que tem o molho das chaves do concelho inteiro.
Chanfana, Dão e o fumo lento do fumeiro
A mesa é, aqui, um acto de identidade. A chanfana à moda de Tondela — cabrito ou carne de bode estufada longamente em panela de barro com vinho tinto do Dão, colorau e alho — chega à mesa a fumegar, com o molho reduzido a uma consistência escura e brilhante que adere à carne desfeita. O Borrego Serra da Estrela DOP, assado no forno de lenha, tem uma crosta dourada e um interior rosado que liberta sumo ao primeiro corte. Ao lado, rojões à moda da Beira acompanhados de couve e salsichas. Os enchidos — morcela de arroz, salpicão — pendem ainda nos fumeiros de algumas casas de Nandufe, e o cheiro a lenha de carvalho impregna o ar nas tardes de Inverno. Quem passa na Rua da Capela sente-o logo - é o fumo que sai das chaminés das casas antigas, onde ainda se faz o toucinho da Beira da forma antiga, salgado e pendurado na lareia durante meses.
O vinho do Dão é o companheiro natural: tintos encorpados de Touriga Nacional, com taninos firmes e notas de fruta madura; brancos de Encruzado, minerais e frescos. No Centro Interpretativo do Vinho do Dão, uma prova comentada permite perceber como os solos graníticos e xistosos a cerca de 288 metros de altitude moldam o carácter destas castas. Para rematar, o toucinho-do-céu — doce conventual denso, húmido, com o sabor inconfundível da amêndoa moída — e um cálice de aguardente bagaceira que arde suavemente na garganta. O café Avenida ainda serve o da casa, feito com as bagasço que sobram das vindimas da família - é questão de pedir "o nosso" e esperar que o Sr. Carlos vá buscar à garrafa debaixo do balcão.
A locomotiva que não partiu
Na antiga estação ferroviária da linha do Dão, convertida em museu etnográfico, uma locomotiva a vapor «Americana» de 1907 repousa sobre carris que já não levam a lado nenhum. O metal está frio ao toque, e a tinta preta descascou em alguns pontos, revelando camadas de ferrugem alaranjada. Dentro do edifício, trajes tradicionais recolhidos pelo etnógrafo António Lopes da Silva documentam uma região que vestia burel e lã tecida em teares manuais — oficinas de tecelagem e cestaria que ainda funcionam no Centro de Artesanato local. Na sala ao fundo, há uma máquina de costura Singer que ainda funciona - pertenceu à Dona Alice, que durante cinquenta anos fez as roupas de todos os meninos da vila. Ao fim da tarde, vale subir ao miradouro do Monte do Calvário, a 308 metros, onde o terreno ondulado da Beira Alta se estende em camadas de verde — vinhedos, olivais, pastagens — até se fundir com a bruma cinzenta da Serra da Estrela ao longe. No dia limpo, avista-se a torre da igreja de São Pedro do Sul, lá para lá do Dão.
Quem desce do Calvário ao crepúsculo regressa ao centro pelo mesmo caminho de sempre, e ao passar junto ao pelourinho já sem feira, já sem vozes, ouve apenas o Bestança a correr algures por baixo da vila — esse murmúrio limpo, teimoso, que nenhuma reforma administrativa conseguiu silenciar.