Artigo completo sobre Vila Cova à Coelheira: caretos, granito e memória viva
Freguesia serrana a 743m onde o Carnaval ancestral convive com castros e a Ponte do Rio Covo
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O eco dos chocalhos chega antes dos caretos. Na última curva antes do largo da Igreja, o som metálico multiplica-se contra as fachadas de granito, enquanto figuras mascaradas de madeira percorrem a Rua da Judiaria como se cumprissem um ritual esquecido pelo calendário oficial. Estamos em Vila Cova à Coelheira, a 743 metros de altitude, onde o Carnaval mantém gestos anteriores ao cristianismo e o frio da Serra da Nave obriga a fechar os casacos mesmo em março.
Entre castros e comendas
O povoamento começou com Lusitanos e Celtiberos, deixando ruínas de castros nas encostas. Mais tarde, no dealbar da nacionalidade, estas terras foram "honra" de Soeiro Viegas, filho de Egas Moniz, antes de passarem para a Ordem dos Hospitaleiros da Comenda de Malta. D. Manuel I concedeu Carta de Foral em 1514, mas o concelho extinguiu-se em 1836, arrastando a freguesia por Fráguas até à integração em Vila Nova de Paiva. O topónimo revela camadas: Vila (origem castrense), Cova (vale entre montes), Coelheira (abundância de coelhos e antigo nome do rio). Em 1993, recuperou o estatuto de Vila, cosendo novamente a memória ao presente.
A Igreja Matriz ergue-se no século XVI, ampliada depois, guardando retábulos barrocos e imagens de talha dourada que captam a luz oblíqua das janelas estreitas. Ao lado, a Capela de S. Sebastião serviu como ermida processional. No adro, uma pedra de aram em forma de calhandra lembra a pequena comunidade judaica que aqui viveu até ao século XX, deixando também a Rua da Judiaria como testemunho inscrito na toponímia. A 200 metros, a Ponte do Rio Covo, construída em 1602 e erradamente apelidada de "romana", cruza o rio com três arcos de cantaria, marca paisagística de um troço da estrada real que ligava Viseu ao Porto.
A mesa e o fumeiro
O cozido à portuguesa aqui não é figura de estilo: no primeiro domingo de janeiro, o "Dia do Cozido" junta a freguesia em torno do caldeirão comunitário, onde couves, enchidos de porco preto e batatas fumegam horas a fio. O Cabrito da Gralheira IGP, estufado ou assado em forno de lenha, divide honras com a Carne Arouquesa DOP, servida em bitoque ou estufada com nabos. Nos dias mais frios, a sopa de nabada — couves, feijão branco e toucinho — aquece as mãos antes de aquecer o estômago. A doçaria apoia-se nos ovos: pão de ló caseiro, suspiros e bolinhos de noz para as festas. Ao fundo da refeição, aguardente de medronho da Serra da Nave, transparente e ardente, fecha o círculo.
Trilhos de xisto e castanheiros centenários
O Trilho do Rio Covo (PR4) percorre oito quilómetros entre Carvalha e Teixelo, descendo por praias fluviais de calhau rolado e poços naturais onde a água corre verde-escura sob a sombra dos carvalhos-alvarinhos. Ao entardecer, não é raro cruzar javalis que descem das encostas. A freguesia estende-se por 32 quilómetros quadrados de relevo ondulado, entre a Serra da Nave e o vale do Rio Covo, afluente do Paiva. Mata de sobreiros cobre as vertentes, separada por muros de xisto que desenham parcelas de oliveiras centenárias e soutos de castanheiro — um deles, com 3,2 hectares, declarado de interesse municipal, é o único do género no concelho.
Gestos que ficam
No Domingo de Páscoa, o "Compasso" leva o altar mor às casas para a bênção dos campos. A 15 de agosto, a Romaria de Nossa Senhora da Assunção enche o largo com procissão, missa cantada e bailarico que se estende pela noite. Entre estas datas, a freguesia vive ao ritmo das colheitas, dos magustos de outubro e do mercadinho mensal no primeiro domingo, onde ainda se vendem esteiras de junco e barro preto moldado à mão.
O som que fica não é o dos chocalhos nem o do sino. É o murmúrio do Rio Covo contra a pedra da ponte de 1602, constante e baixo, que se ouve melhor ao fim da tarde, quando a luz rasante tinge de cobre as fachadas de granito e o fumo dos fumeiros começa a subir, devagar, pelas chaminés.