Artigo completo sobre Fragosela: fornos comunitários e vinhas junto ao Dão
Freguesia viseense onde os bolos de milho cozem em fornos de pedra e as festas mantêm viva a tradiçã
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O cheiro a fumo de lenha mistura-se com o aroma adocicado do bolo de milho que coze no forno comunitário. É sábado de manhã em Fragosela e o forno de pedra da Rua do Forno, construído em 1923 sobre outro mais antigo, aquece sob a mão de quem sabe esperar. A massa escurece devagar, enquanto lá fora o sol rasante ilumina as vinhas que descem em socalcos até ao Rio Dão. Aos 355 metros de altitude, esta freguesia de 2528 habitantes estende-se entre terras onduladas onde o verde dos olivais alterna com o castanho da terra lavrada.
A memória gravada em pedra
A Igreja Paroquial de São Tiago ergue-se no centro, cal branca contra o céu, retábulos barrocos a dourar no interior penumbroso. Construída entre 1725 e 1750, guarda imagens de talha que refletem a luz das velas acesas pelos fiéis. No altar-mor, o retábulo de talha dourada ostenta o santo padroeiro em madeira policromada do século XVIII. Mais discretas, as capelas de Nossa Senhora da Saúde e de São Sebastião pontuam os caminhos rurais, reconstruídas no século XIX mas fiéis à devoção antiga. Nas margens do Ribeiro de Prime, a Ponte de Pedra de traçado medieval resiste - sete arcarias de granito onde ainda se vêem as marcas das rodas dos carros de bois que transportavam o cereal para os moinhos do Dão. Junto ao rio, o Moinho do Penedo, desativado em 1963, mantém a roda de madeira intacta, testemunho de 47 anos de moagem.
Quando a festa sabe a tradição
Em agosto, a Festa dos Rolões transforma a freguesia. Durante dois dias, os fornos comunitários trabalham sem parar, assando bolos de milho que saem crocantes por fora, húmidos por dentro. O nome "rolões" vem da prática antiga de enrolar o bolo ainda quente em pano de linho para o transportar. Há música de concertinas, danças de roda na praceta, mãos que batem palmas ao ritmo certo. Setembro traz a Desfolhada: espigas de milho amontoadas no terreiro, cantigas ao desafio que provocam risos, ceias camponesas onde o vinho do Dão corre solto. A 25 de julho, a irmandade de São Tiago organiza romaria com procissão solene e distribuição de bolo - massa doce que se reparte entre vizinhos e peregrinos do Caminho de Torres, o ramal secular de Santiago que atravessa Fragosela desde 1325. Ao domingo de Pentecostes, rapazes e raparigas trocam Flores dos Namorados, ramalhetes de papel colorido dobrado segundo técnica centenária, promessa silenciosa de namoro que se perde na memória dos tempos.
Sabores que vêm da terra e do rio
A cozinha de Fragosela não inventa: repete gestos antigos com produtos da região Dão-Lafões. Os enchidos fumados de porco bísaro pendem nos fumeiros desde novembro, quando o frio permite a cura lenta. O queijo flamengo, introduzido pelos monges beneditinos do Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra no século XVI, cura devagar nas arribas de xisto. Entre janeiro e abril, quando as lampreias sobem o Dão, o arroz ganha corpo e cor escura, temperado com vinho tinto e hortelã - prato que se come desde que o Mosteiro de São João de Tarouca detinha os pesos de medida do rio em 1140. O borrego Serra da Estrela DOP assa em forno de lenha, carne tenra que se desfia, acompanhada de grelos salteados e batatas murcas. À sobremesa, o pastel de Fragosela - folhado recheado com doce de ovos criado nas cozinhas do Convento de Santa Maria de Mancelos - ou o bolo de milho regado a mel de urze colhido nos campos de altitude. Nas quintas da Rota dos Vinhos do Dão, os tintos encorpados harmonizam com queijos DOP: Terrincho, Serra da Estrela, requeijão fresco que escorre na colher.
Caminhos de água e pedra
O Trilho dos Moinhos percorre seis quilómetros entre azenhas recuperadas, margens do Dão onde crescem estevas e rosmaninho. Ao amanhecer, o nevoeiro sobe do rio, dissolve-se na luz oblíqua. Garças-reais pousam em pedras cobertas de musgo, mergulhões-de-coleira mergulham em silêncio. Mais acima, o Monte do Castro alcança os 480 metros: dali vê-se Viseu recortada contra a Serra da Estrela, vale amplo onde o rio serpenteia entre praias fluviais de calhau rolado. No verão, há quem desça de canoa desde o cais fluvial, quatro quilómetros de água calma pontuados por libélulas azuis. A praia fluvial de Fragosela, inaugurada em 2004, ocupa o lugar onde antigamente os lavradores vinham lavar as bestas depois da lavoura.
O forno comunitário esfria ao fim da tarde. Resta o cheiro a cinza quente e a crosta tostada do último bolo. Fragosela não precisa de pressa: aqui, o pão ainda se coze como antigamente, e cada fornada leva o tempo exacto que sempre levou.