Artigo completo sobre São Cipriano e Vil de Souto: vinhas e soutos do Dão
Freguesia viseense entre castanhais centenários, vinhedos em socalco e queijos DOP da serra
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O primeiro clarão de sol atravessa as videiras em socalcos e arranca reflexos dourados às folhas ainda húmidas do orvalho. No silêncio da manhã, ouve-se apenas o canto distante de um galo e o arrastar lento de botas na terra batida — alguém que caminha entre os soutos de castanheiro rumo ao lagar de pedra. A altitude de quatrocentos e quarenta metros suaviza o rigor da serra sem afastar o frio cortante das madrugadas de inverno. Aqui, onde São Cipriano e Vil de Souto se encontram, o tempo mede-se em vindimas e castanhas, em queijos a curar e em vinho que descansa na adega.
Soutos e vinhas: a paisagem que se come
A paisagem desta freguesia no coração do Dão é uma gramática de linhas horizontais — fiadas de vinha, manchas verde-escuro dos castanheiros, muros baixos de xisto que delimitam propriedades herdadas há gerações. O nome "Vil de Souto" aparece em pergaminhos medievais como "Villa de Souto", testemunho de uma importância que justificou foral próprio antes das reformas do século XIX. O souto — o castanhal — é mais do que toponímia: é economia, sombra, lenha, fruto assado nas brasas e farinha moída para a broa. Entre as árvores serpenteiam caminhos de terra batida que os ciclistas da rota Vale do Dão percorrem em busca de vistas amplas sobre a serra do Caramulo. Se vier de bicicleta, desça à vontade — os locais habituaram-se a turistas de casaco colorido e pernas cansadas.
Queijos, carnes e o Dão no copo
A mesa reflete a dupla vocação pastoril e vinícola. O Queijo Serra da Estrela DOP chega amanteigado e intenso, acompanhado do Queijo Terrincho DOP, de pasta mais firme, e do Requeijão Serra da Estrela DOP que escorre sobre fatias grossas de pão de milho. A carne é assunto sério: Borrego Serra da Estrela DOP no forno de lenha, Cabrito da Gralheira IGP estufado com vinho tinto, Carne Arouquesa DOP grelhada sobre brasas de carvalho, Vitela de Lafões IGP em arroz de forno. Na cooperativa local, o centro interpretativo do queijo serra oferece degustação guiada, onde se aprende a distinguir texturas e pontos de cura — e onde, se tiver sorte, a senhora da loja lhe conta como o avô fazia o queijo escondido da mulher para não ter de partilhar. Ao fundo da sala, garrafas de Touriga Nacional descansam na horizontal — o Dão é aqui pronome possessivo, nunca apenas denominação de origem. Se lhe oferecerem um copo, aceite. Recusar é como dizer que a sogra coze mal — nunca se sabe quem está a ouvir.
Caminho de pedra e fé
A freguesia é atravessada pelo Caminho de Torres, ramal do Caminho de Santiago que liga Viseu a Chaves antes de entrar em Espanha. Peregrinos com conchas cosidas às mochilas param nas antigas casas de abrigo rural, bebem água das fontes de granito e retomam a marcha entre capelas românicas e lagares abandonados. O percurso pedestre de cinco quilómetros que une Vil de Souto a São Cipriano é exercício de contemplação lenta: cada curva revela um novo enquadramento de vinha, cada descida aproxima o murmúrio do Rio Dão onde, ao entardecer, garças e patos-reais procuram alimento nas margens rasas. Se encontrar um peregrino perdido, aponte o caminho mas não lhe diga que faltam três horas — ele precisa de acreditar que são apenas vinte minutos.
Vindima de pés descalços
Em setembro e outubro, o programa "Harvest Experience" convida a pisar uva em lagares de granito, os pés roxos de mosto, as mãos pegajosas de bagaço. É trabalho físico e ritual antigo, celebração e suor partilhado. Venha com roupa velha — o mosto mancha como vingança de ex-namorada. No inverno, o roteiro do castanheiro oferece castanhas assadas em fogareiros de ferro e copos de jeropiga — vinho doce que aquece a garganta e enrubesce as faces. A observação de aves ribeirinhas, com binóculos disponíveis no posto da Junta, transforma uma tarde cinzenta em inventário de silhuetas: guarda-rios, alvéolas, gaivotas perdidas que subiram o vale à procura de peixe. O posto fecha às cinco, mas o Sr. António guarda os binóculos até mais tarde — basta bater à porta de casa dele, que fica por baixo da igreja.
O sol poente incendeia as videiras e projecta sombras compridas sobre os socalcos. Ao longe, o fumo de uma chaminé sobe direito no ar imóvel — lenha de castanheiro que arde devagar, perfumando o entardecer com o cheiro acre e doce da Beira interior. Ninguém tem pressa de acender as luzes. Se ficar para jantar, leve a garrafa que o Sr. António lhe ofereceu — ele gosta de saber que o vinho foi bebido na companhia certa.