Artigo completo sobre Cambra e Carvalhal: onde o sino ecoa nos vales de Vouzela
Duas aldeias unidas por carvalhais, pedra seca e memórias de minas de ferro nas encostas do Vouga
Ocultar artigo Ler artigo completo
O sino da capela de São Sebastião soa às oito da manhã e o eco demora a morrer nas encostas. Não é o silêncio que se segue - é o som da borracheira a ranger na levada, o raspado da pá de Miranda a mexer na pega do gado. A esta altitude, mesmo em pleno Agosto, o ar da manhã traz o sabor das bolotas que os porcos de raça Bísara andaram a roer durante a noite.
Duas aldeias, uma geografia partilhada
A União nasceu no papel em 2013, mas quem cá vive sabe que Cambra com Carvalhal já se misturava há gerações. São três quilómetros de estrada municipal que cheira a estrume fresco quando a noite cai - primeiro o curral do Zé Mário, depois o vale onde o Vouga se encolhe e faz ressaca nas pedras. Cambra tem o café onde o Júlio serve um bica queimar a língua e onde se discute o preço do leite. Carvalhal tem a fonte onde as mulheres ainda vão encher garrafões aos sábados, apesar da canalização.
A igreja de Cambra tem o teto de madeira que range quando o padre subiu ao púlpito. As cadeiras da sacristia têm as pegadas de gerações de crentes - o braço esquerdo desgastado onde se apoiavam para se levantar. Em Carvalhal, a capela de São Sebastião tem as paredes caiadas de cal que o António vai renovando todos os anos, antes das festas. O adro tem um carvalho que perde as folhas em Novembro e faz sombra suficiente para as crianças brincarem às escondidas durante a missa.
O ritmo das celebrações
Em Janeiro, São Sebastião traz os devotos de Vouzela inteira. As mulheres de Cambra fazem o bolo de laranja dias antes - o segredo é a canela da terra que a D. Rosa guarda num frasco de conservas. A procissão desce pela estrada, os homens vão aquecendo as mãos no fogo das archotes, o cheiro a pinho queimado mistura-se com o do vinho quente que o clube de futebol vende à entrada da capela.
Mas é em Setembro que a coisa acontece. A Senhora da Saúde faz com que as duas aldeias se encontrem a meio caminho - há quem saia de Cambra às seis da manhã com os pés doloridos, mas é na subida para o Carvalhal que se come o pão de milho com chouriço que as mulheres prepararam na véspera. A banda toca músicas que se ouvem há cinquenta anos, os velhos que já não conseguem marchar vão de trator, sentados na carroçaria com um cobertor por cima das pernas.
Sabores de altitude
No O Brasão, o Zé serve a chanfana que a mulher dele começou a preparar na véspera. A panela de barro veio do oleiro de Paradela, o vinho é do Dão mas o segredo é o colorau que o avô trazia de Trás-os-Montes. A carne é da vaca da vizinha - Arouquesa verdadeira, que andou nestas pastagens a comer tojo e urze. O arroz de sarrabulho tem o sangue que se vai buscar ao matadouro municipal às quintas-feiras, quando o Jaime vai lá vender os leitões.
Há quem faça o presunto na cave da casa - o porco foi abatido em Dezembro, salgado com sal grosso do Figueira da Foz, depois foi para o fumeiro onde a lenha de carvalho fuma durante três meses. Quando se corta um presunto novo, a gordura tem o cheiro da castanha que os porcos andaram a comer no outono.
Caminhar o Vouga
O trilho começa mesmo ali em cima do cruzamento - há uma placa que o Ventura pintou quando a câmara lhe pediu para fazer guia de turismo rural. São oito quilómetros que descem até ao rio, passando onde o Zé Mário tem o apiário. Se for em Maio, leve um frasco porque ele vende o mel de urze a cinco euros o quilo - é escuro, tem gosto a bosque molhado.
O Vouga faz ali uma curva que parece um C deitado. Há uma praia fluvial que ninguém conhece fora da freguesia - os miúdos vão lá nadar em Agosto, quando o leite já foi entregue e as vacas estão nos pastos altos. O campo de São Sebastião tem mesas de pedra onde se come o queijo da serra que a D. Albertina faz com leite de cabra - tem aquele gosto a tanque de pedra e erva de montanha.
Ao fim do dia, quando o nevoeiro sobe do rio e começa a tapar os carvalhais, ouve-se o sino outra vez. Não é o das oito - é o do Angelus que o padre toca às sete. As vacas Arouquesas levantam a cabeça, os cães das aldeias ladram em coro, e alguém vai fechando as janelas de madeira que rangem como velhas conhecidas.