Artigo completo sobre Moinhos de água e memória no vale de Fataunços
Cinco moinhos ao longo de oito quilómetros contam a história rural entre Fataunços e Figueiredo
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O som chega antes da imagem: água a bater nas pás de madeira, ritmada, como quem bate com os dedos na mesa do café a marcar tempo. No vale do rio Fataunços, cinco moinhos distribuem-se ao longo de oito quilómetros — alguns ainda com as mós de granito intactas, outros reduzidos a paredes cobertas de musgo e hera. O Moinho do Pego, recuperado no século XIX, mantém a roda a girar quando a água desce forte da serra. É aqui, entre Fataunços e Figueiredo das Donas, que o território se revela em camadas: romano, medieval, barroco, rural — tudo presente ao mesmo tempo, sem pose nem encenação.
Duas aldeias, uma memória partilhada
A fusão administrativa de 2013 uniu oficialmente o que a geografia já aproximara durante séculos. Fataunços, mencionado em 1220 como "Fatauncios" — possivelmente derivado do latim vulgar para "fonte das cheias" — e Figueiredo das Donas, que em 1258 aparecia como "Figaredo" antes de ser doado às freiras do mosteiro de Santa Maria de Vouzela, mantêm ainda hoje duas sedes de junta. É a única freguesia do concelho com duas salas de atendimento ao público, um detalhe administrativo que espelha a identidade dupla deste território de 1266 hectares.
O Cruzeiro de Fataunços, setecentista e classificado como Monumento Nacional, ergue-se em granito junto à estrada. A poucos quilómetros, a Capela de São Sebastião em Figueiredo das Donas — Imóvel de Interesse Público do século XVII — guarda uma história menos solene: serviu de hospital improvisado durante a pandemia de cólera de 1855. As paredes encaladas viram febre e prece, e ainda hoje, a 20 de janeiro, a romaria de São Sebastião enche a praça com missa campal e o aroma adocicado do bolo de São Sebastião, massa fermentada com canela e erva-doce que se distribui à porta da capela.
No trilho das águas e das conchas
O Trilho dos Moinhos é uma travessia entre tempos. Começa ao amanhecer, quando a neblina ainda cobre o vale e os melros começam a cantar nos carvalhais. Passa por levadas de pedra, pontes estreitas e pelo Pego da Moura, uma lagoa natural de água cristalina onde, segundo a lenda local, uma moura se banhava à noite — e há quem jure ouvir ainda os seus cânticos em noites de lua cheia. A ponte romano-medieval sobre o rio Fataunços conserva um arco original em cantaria, testemunho silencioso de séculos de passagem.
Quatro quilómetros desta freguesia pertencem ao Caminho de Santiago da Costa-Central. As conchas amarelas pintadas nos muros de xisto guiam peregrinos até ao posto de interpretação onde se carimba a credencial. A serra do Fojo, com o seu cume a 560 metros, domina a paisagem: sobreiros, urze, pastagens onde as vacas Arouquesa pastam soltas. Do Miradouro do Fojo, o vale do Vouga desenha-se lá em baixo, recortado por socalcos de vinha da região demarcada do Dão.
Chanfana, presunto e memória à mesa
A chanfana à moda de Vouzela não se faz com pressa. Cabrito ou bode estufado em panela de barro com vinho tinto, louro e colorau, cozinha lenta até a carne desprender-se do osso. No restaurante O Fojo, serve-se acompanhada de vinho Dão — a casta Touriga Nacional domina as encostas — e de broa de milho ainda quente. Na feira mensal de Fataunços, no primeiro sábado de cada mês, os produtores locais trazem presunto de porco preto, toucinho fumado, queijo de ovelha curado e mel de urze. No primeiro domingo de outubro, Figueiredo das Donas enche-se para a feira anual de gado, com leilão de bovinos de raça Arouquesa e o cheiro intenso a terra pisada e estrume fresco.
A memória desta terra guarda nomes precisos: Padre Joaquim Augusto da Silva, que em 1824 fundou a primeira escola noturna para adultos do concelho; Dr. António Pereira Figueiredo, médico rural e deputado; Maria da Conceição Figueiredo, primeira mulher presidente de junta de Vouzela entre 1976 e 1979. Em 1932, durante a construção da estrada nacional, desenterrou-se um núcleo de cerâmica romana com o selo "SAGIVS", hoje exposto no Museu de Viseu.
O que fica
Ao final da tarde, quando a luz rasante entra pelas janelas da Igreja Matriz de Fataunços e ilumina os painéis de azulejo setecentistas, o silêncio instala-se denso. Lá fora, o sino toca as seis, e o eco espalha-se pelo vale até se perder entre os sobreiros. É este som — metálico, grave, repetido — que fica na memória: não como símbolo, mas como presença física, vibrando no ar frio da serra.